[gicom] RES: As novas mídias e o ativismo político.

Hélio Teixeira heliolteixeira em gmail.com
Quarta Junho 8 09:23:11 BRT 2011


Luiz e Carlos

Concordo inteiramente com os dois.

Luiz, você foi muito feliz em sua intervenção.  Uma das publicações
que eu sempre recomendo aos meus alunos, na verdade eu classifico como
indispensável, para a compreensão dos fenômenos da Comunicação, é
justamente o livro "Cours de Médiologie Générale" de Régis Debray, no
qual ele reivindica a paternidade de uma nova ciência, a Midiologia,
muito bem citada por você.

Essa é uma discussão fundamental para todos aqueles que buscam
entender os fenômenos da comunicação nos dias de hoje.
Tenho participado de inúmeros debates sobre esse tema em alguns dos
fóruns de discussão que eu participo mundo afora e nos diversos cursos
e palestras que tenho ministrado nos últimos anos, tanto no mundo da
comunicação de interesse privado como no mundo da comunicação de
interesse público.

Para ampliarmos um pouco mais o escopo da nossa discussão, quero
introduzir alguns elementos que podem ser úteis em nossa conversa.
Quando falamos em “mídias sociais” estamos na verdade tratando das
chamadas relações interpessoais, estamos falando da criação de valor
oriunda das interações interpessoais. Como sabiamente afirma o meu
amigo John Seely Brown, professor da Universidade da Califórnia,
“quando falamos de social networking, estamos na verdade falando do
reino da ‘portabilidade das conexões pessoais’”.

E é justamente neste ponto onde mora grande parte da confusão em
relação a esse tema. Discute-se muito a questão acessória, a
tecnologia (avanço tecnológico, ferramentas de comunicação,
dispositivos de conexão, etc...), e relegam a um segundo plano, quando
não ignoram completamente, a matéria-prima principal, as relações
interpessoais.

A narrativa e o discurso popular consagrados atualmente sobre esse
tema estão eivados de lendas e utopias. E nos descrevem um cenário
absolutamente idílico, atribuindo poderes sobrenaturais às ferramentas
tecnológicas de mídias sociais.

O ATIVISMO E AS NOVAS MÍDIAS

No ano passado, durante o processo de pesquisa para a elaboração dos
cursos do IHT, fui apresentado, por um colega da NYU, ao trabalho do
sociólogo Doug McAdam professor e pesquisador da University  of
Arizona. McAdam publicou o artigo intitulado “Recruitment to High-Risk
Activism” (Recrutamento para o ativismo de alto risco), onde sustenta
que o ativismo de alto risco, aquele que desafia o “status quo” e que
ataca os problemas profundamente enraizados - como é o caso dos atuais
movimentos populares contra as ditaduras no norte da África e no
Oriente Médio -, não se dá em um contexto onde as relações
interpessoais são baseadas em “weak ties” (vínculos fracos).

O que torna as pessoas capazes deste tipo de ativismo? Para surpresa
de muitos, McAdam descobriu que a principal motivação não vem do
fervor ideológico, como seria de se esperar. O fator mais importante
no processo de recrutamento é o grau de conexão pessoal que o
indivíduo tem com o movimento e os seus membros. A conclusão de McAdam
não poderia se mais eloquente:  “O ativismo de alto risco é um típico
fenômeno ‘strong ties’ (vínculos fortes)”. (leia o artigo de MacAdam
na íntegra em: http://files.meetup.com/160880/High-risk%20activism.pdf)

Este padrão de comportamento repete-se em diversos outros estudos
semelhantes. Um dos estudos mais conhecidos sobre as famosas Brigadas
Vermelhas, grupo terrorista italiano da década de setenta, constatou
que setenta por cento dos recrutas daquela organização tinham pelo
menos um bom amigo dentro da organização que os atraiu para a
militância no grupo. O mesmo comportamento foi constatado em outro
estudo sobre os homens que se juntaram aos mujahidin no Afeganistão.

Mesmo as ações revolucionárias que ao primeiro olhar podem até parecer
espontâneas, como no caso das manifestações na Alemanha Oriental, que
levaram à queda do Muro de Berlim, foram, também, em seus núcleos,
fenômenos “strong ties” (vínculos fortes). Segundo o relato do
historiador britânico Malcon Gladwell, o movimento de oposição que
surgiu na Alemanha Oriental era constituído por várias centenas de
grupos, cada um com cerca de uma dúzia de membros. Cada grupo tinha
muito pouco contato uns com os outros (naquela época, apenas treze por
cento dos alemães orientais tinham um telefone em casa). Tudo o que
eles sabiam era que nas noites de segunda-feira, em frente à Igreja de
São Nicolau, no centro de Leipzig, as pessoas reuniam-se para
manifestar a sua indignação perante o Estado. O fator determinante
para o recrutamento de novos membros foi o que Gladwell chamou de
"amigos críticos", quanto mais amigos críticos do regime você tinha,
mais provável seria que você aderisse aos protestos.

E é justamente aqui onde cai por terra toda a utopia dos
revolucionários super poderes das mídias sociais. As plataformas de
mídias sociais são construídas basicamente em torno de vínculos
fracos. O Twitter é uma maneira para seguir (ou ser seguido por)
pessoas com as quais você nunca tenha se encontrado (e talvez nunca vá
se encontrar!) pessoalmente. O Orkut é uma ferramenta para a gestão
eficiente dos seus conhecidos, muitos deles completos desconhecidos,
apesar de você “colecionar” centenas desses contatos em uma lista com
o título de “amigos”. (Como se fosse possível ter centenas de amigos!)

Então as mídias sociais não servem para nada? Antes que alguém me faça
essa pergunta.  Quero ressaltar que os vínculos fracos também têm a
sua força. A nossa maior fonte de novas idéias e informações, por
exemplo, não está em nossos amigos mais próximos (vínculos fortes) e
sim em nossos conhecidos (vínculos fracos). A mídia social permite-nos
explorar, com maravilhosa eficiência, o poder das nossas de ligações
interpessoais mais distantes. Gladwell nos oferece alguns exemplos
desse poder: “Os vínculos fracos também são excelentes meios para a
difusão da inovação, para a colaboração interdisciplinar, para unir
compradores e vendedores e até mesmo  para as funções logísticas das
conquistas amorosas.

No entanto, apesar de todas essas fantásticas possibilidades, temos
que reconhecer e reafirmar, para o desalento de alguns colegas meus se
auto intitulam "evangelizadores de mídias sociais" (confesso que até
hoje não entendi direito  essa "E"stória de "evangelizadores" rsrs),
os vínculos fracos raramente levam ao ativismo de alto risco.

Grande abraço

Hélio Teixeira

PS.: Essa discussão está sendo reproduzida no Chapa Branca em:
http://comunicacaochapabranca.com.br/?p=17134



Em 7 de junho de 2011 13:22, Assessoria de Imprensa
<imprensa em camarasantarosa.rs.gov.br> escreveu:
> Olá Luiz Carlos
>
> Estou com grande dificuldade em fazer funcionar a nossa transmissão pela
> internet das Sessões da Câmara de Vereadores. As vezes é desanimador as
> tentativas de convencer algumas pessoas. Sou do princípio da máxima
> divulgação e aguardo com mta expectativa a PLC 41 que trata do Direito à
> Informação. Seria importante inclusive alguém trazer mais informações sobre
> como anda esse Projeto que está nas mãos do Senador Fernando Collor!!
> Luiz, gostaria mto de poder conhecer sua dissertação. Qual a possibilidade?
>
> Miguel Oliveira
> Câmara Municipal de Vereadores
> Santa Rosa - RS
>
>
> ----- Original Message -----
> From: "Luiz Carlos Santana de Freitas" <luizcar em interlegis.gov.br>
> To: "Grupo Interlegis de Comunicação" <gicom em listas.interlegis.gov.br>
> Sent: Tuesday, June 07, 2011 11:48 AM
> Subject: [gicom] RES: As novas mídias e o ativismo político.
>
>
> Acho muito interessante esse tipo e discussão. Quando fazia minha
> dissertação de mestrado em 2002, sobre tevê legislativa, e levantei temas
> como espetacularização da política, concluí que a política, enquanto
> atividade humana e social, não teve muitas transformações desde que o homem
> começou a viver em sociedade. O que mudam são os meios utilizados (ver o
> conceito de Midiologia, nos trabalhos de Regis Debray)
> Portanto, concordo que o que importa, mesmo, é a motivação e a disposição.
> Para se conseguir isso, vale qualquer mídia.
> Luiz Carlos
>
>
>
> -----Mensagem original-----
> De: gicom-bounces em listas.interlegis.gov.br
> [mailto:gicom-bounces em listas.interlegis.gov.br] Em nome de Carlos Scomazzon
> Enviada em: terça-feira, 7 de junho de 2011 11:15
> Para: Grupo Interlegis de Comunicação
> Assunto: Re: [gicom]As novas mídias e o ativismo político.
>
> Helio,
>
> Concordo contigo, mídias sociais apenas propiciam uma interação maior
> entre as pessoas. Mas se ela não estiverem mobilizadas e interessadas
> no assunto, não serão as mídias que conseguirão isso.
>
> O que move o ativismo político hoje é o mesmo mote que movia os
> anarquistas há muito tempo atrás e os que lutaram contra a ditadura no
> Brasil: a disposição de lutar por uma causa.
>
> Sem isso, não adianta mídia.
>
> abs
>
> Carlos
>
>
> Em 6 de junho de 2011 19:47, Hélio Teixeira <heliolteixeira em gmail.com>
> escreveu:
>> Pessoal
>>
>> As novas mídias estão "reinventando" o ativismo político? Eu acho que não!
>>
>> Confiram o meu argumento e opinem!
>>
>> http://comunicacaochapabranca.com.br/?p=17116
>>
>> Grande abraço
>>
>> --
>> Hélio Teixeira
>> http://ComunicacaoChapaBranca.com.br
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>> Regras de participação:
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>> Para pesquisar o histórico da lista visite:
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