[gial] [gitec] Um novo espaço

Hélio Teixeira heliolteixeira em gmail.com
Terça Março 8 10:22:58 BRT 2016


Olá Jean

Excelente pergunta meu amigo. Para te responder, antes de mais nada, é
preciso esclarecer sobre qual tipo de tecnologia eu estou me referindo aqui.

Se um extraterrestre chegasse hoje ao nosso planeta, em uma missão
exploratória, batesse em minha, e me pedisse para ajudá-lo em sua jornada
para entender a raça humana. O primeiro conselho que eu daria a ele seria:
conheça as tecnologias que nós (humanos) utilizamos.

Poucas coisas incorporam tão bem os valores de uma sociedade quanto as
tecnologias ela usa. As tecnologias materializam as nossas iniquidades
pessoais e coletivas. Nelas estão expressas as nossas  teorias de
felicidade e de sucesso. Nossos sonhos de consumo e o arcabouço mitológico
que nos inspira em nossa busca por ascensão social em nossos grupos
identitários. Enfim, as tecnologias são janelas reveladoras da alma
coletiva de uma sociedade.

Portanto, grosso modo, há que se ter muito claro que existem tecnologias
que fazem bem à vida coletiva e as que fazem mal. As primeiras – aquelas
que realmente nos interessam –, eu chamo de “tecnologias do nós”. São as
tecnologias que empoderam os coletivos e combatem as narrativas míticas que
sustentam o que eu chamo de “a face obscura do individualismo”. (sim,
existe uma face boa, porém esquecida e pouco valorizada, do individualismo.
Mas isso é assunto para outro momento...).

E não estou falando apenas de tecnologia no sentido contemporâneo do termo,
associada ao mundo digital e aos dispositivos eletrônicos. Estou falando de
tecnologia no sentido mais amplo do termo. Tecnologia é qualquer
modificação que é feita no mundo natural para alcançar um objetivo. Assim,
se observarmos atentamente, uma fila é uma tecnologia que inventamos para
tornar mais justa (e menos conflituosa) a nossa espera.

Poucas pessoas se dão conta, mas a própria Democracia é uma tecnologia.
Inventada para, entre outras coisas, organizar as relações de poder em
sociedade.

É por esta razão que, no Instituto Hélio Teixeira, nós estamos focados em
desenvolver as chamadas “tecnologias do nós”. Levar ao maior número de
pessoas esse conhecimento. Queremos aumentar o repertório de tecnologias
para ação coletiva da geração atual e das futuras gerações.

Queremos formar especialistas nas tecnologias mais importantes para a vida
em sociedade. Vou dar alguns exemplos: Você já pensou quão limitado é o
nosso repertório de maneiras, métodos e processos de reunir pessoas? Quão
limitado é o nosso conhecimento sobre a estrutura causal dos processos
criativos coletivos? Quão limitado é o nosso conhecimento sobre as
transformações coletivas?

Como um coletivo muda a sua maneira de pensar e agir? Esta é a pergunta
mais importante que devemos responder. Pois de maneira ingênua, hoje,
estamos procuramos respostas nas transformações individuais – investindo
tempo e recursos preciosos em livros de autoajuda e em terapias individuais
–, quando deveríamos nos concentrar nas transformações coletivas. É
ilusório achar que construiremos um mundo melhor transformando um indivíduo
de cada vez. A unidade básica de transformação social sempre foi (e sempre
será!) o grupo, não o indivíduo. (em verdade, nos processos de
transformação moral e comportamental há que se questionar a própria
dicotomia indivíduo/coletivo, mas isso também é um assunto para outro
momento...)

Para encerrar é importante lembrar que o principal desafio coletivo que
enfrentamos hoje, é o desafio da colaboração. Nós perdemos o hábito de
discutir o futuro de nossa sociedade em ambientes institucionais. Não somos
capazes de nos unir em torno de objetivos comuns que nos mobilizem de forma
coordenada para construir um futuro desejado. Essa incapacidade
colaborativa para construir  e perseguir metas coletivas se reflete na
perpetuação da corrupção, das desigualdades sociais, do aquecimento global,
da violência e do crescente desinteresse das pessoas pela vida cívica de
suas comunidades. E isso só mudará quando a nossa paisagem tecnológica for
dominada pelas “tecnologias do nós”!

Grande abraço!

Em 17 de dezembro de 2015 17:55, Jean Rodrigo Ferri <
jeanferri em interlegis.gov.br> escreveu:

> Grande Hélio,
>
> Bom saber que você está de volta!
>
> Você já conseguiu mapear, depois desse tempo se dedicando a esse tema,
> práticas e/ou ferramentas que nos ajudem ou ajudem aos órgãos públicos a
> criar essas áreas para reunir pessoas, motivá-las, e espaços para isso?
>
> Muito bom o blog!
>
> Abraço,
>
> Jean Ferri
>
>
>
> Em 17-12-2015 10:25, Hélio Teixeira escreveu:
>
>> Grande Leandro
>>
>> Você tem um olhar aguçado meu amigo. Entre todas as provocações que o
>> nosso
>> blog traz, esta talvez seja a mais importante para a nossa democracia.
>> Como
>> reunir pessoas do jeito certo? Este não é um questionamento qualquer. Este
>> é a pergunta cuja resposta traz embarcada a solução para todos os nossos
>> grandes desafios coletivos.
>>
>> Por que é tão importante reunir pessoas do jeito certo? Porque a
>> colaboração é a nossa única saída. Afinal alguém espera que aqueles que
>> foram eleitos para roubar sejam os responsáveis pelo fim da corrupção?
>>
>> A colaboração é nossa única alternativa para enfrentar os nossos desafios
>> coletivos. Sem colaboração não geramos responsabilização coletiva. Sem
>> responsabilização coletiva não temos a participação co-criativa das
>> pessoas. Sem participação co-criativa nenhuma mudança sustentável ocorre.
>> Sem mudanças sustentáveis não construiremos o futuro que queremos e tanto
>> precisamos!
>>
>> Então, se eu pudesse resumir em uma frase qual o maior fracasso das nossas
>> atuais instituições políticas, eu diria: elas não sabem (ou não querem!)
>> reunir pessoas do jeito certo. Em outras palavras, eles não sabem (ou não
>> querem!) configurar os espaços institucionais (estruturais e simbólicos)
>> para a colaboração co-criativa.
>>
>> E aqui entra outra questão de fundo muito importante: A política deve ser
>> a
>> arte de reunir as pessoas para construir juntas o futuro. Mas,
>> infelizmente
>> não é o que vemos hoje.
>>
>> O que vemos é uma postura de super-homem adotada pela quase totalidade dos
>> gestores públicos eleitos. Eles são eleitos com discursos oniscientes. Em
>> seus discursos, eles possuem soluções e respostas para tudo. Eles têm um
>> plano para resolver cada problema. A mensagem é mais ou menos a seguinte:
>> "Vote em mim e eu resolverei todos os vossos problemas". Aliás, os
>> próprios
>> eleitores alimentam essa dinâmica paternalista, quando recompensam com o
>> seu voto os candidatos "oniscientes" em detrimento daqueles que adotam a
>> postura mais honesta de assumir a sua natural incapacidade para resolver
>> tudo.
>>
>> Em resumo, acredito que a maior contribuição que as instituições políticas
>> podem oferecer à sociedade é REUNIR AS PESSOAS DO JEITO CERTO. Ou melhor:
>> REUNIR AS PESSOAS COM AS MOTIVAÇÕES CERTAS, EM CONTEXTOS/ESPAÇOS ADEQUADOS
>> E COM AS LIBERDADES CERTAS.
>>
>> O grande desafio do Instituto Hélio Teixeira e do nosso blog é justamente
>> este. Ensinar as pessoas a se reunir do jeito certo. Queremos aumentar a
>> capacidade colaborativa de nossas comunidades levando esse conhecimento ao
>> maior número de pessoas e comunidades que pudermos alcançar. Queremos
>> ensinar as crianças a fazer isso incorporando esse conhecimento aos
>> currículos escolares. Afinal, quanto mais pessoas tiverem acesso a este
>> conhecimento mais forte e poderosa será a nossa democracia.
>>
>>
>> Grande abraço
>>
>>
>> Em 14 de dezembro de 2015 15:03, Leandro Roberto Silva <
>> leandroroberto.br em gmail.com> escreveu:
>>
>> Grande Hélio Teixeira...
>>>
>>> *"Como reunir pessoas do jeito certo"*
>>>
>>> Desafio monstruoso que, com certeza, carece de fomento...
>>> No que tange no meu quintal, a tecnologia, a oferta de ferramentas que
>>> oferecem a transparência, carecem de um ambiente colaborativo que,
>>> inclusive, seja disseminado e abraçado por desenvolvedores também do
>>> setor
>>> privado... (Poderiam dizer, "isso não é minha obrigação", Será?) Sabemos
>>> que as instituições públicas, geridas por agentes políticos, tem como
>>> financiar o impulsionamento dessa transparência mas, evidentemente, não
>>> faz
>>> parte de seus interesses... Um ambiente colaborativo e uma formação
>>> de consciência, no que tange às nossas obrigações pontuais, com o apoio e
>>> colaboração do ministério público e tribunais de contas,
>>> seriamos imbatíveis na oferta de transparência... mas falta isso aí...
>>> conscientização e colaboração...
>>> --
>>> att.
>>> Leandro Roberto Silva
>>> Câmara Municipal de Jataí
>>>
>> --
> Histórico do grupo:
> http://colab.interlegis.leg.br/search/?type=thread&order=latest&list=gitec
>
> Regras de participação:
> http://colab.interlegis.leg.br/wiki/ComoParticiparComunidade
>
> Para administrar ou excluir sua conta visite:
> https://listas.interlegis.gov.br/mailman/listinfo/gitec
>



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Hélio Teixeira
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