[gial] Trajédia que a gente não quer que aconteça

rabi souza rabisouza em hotmail.com
Quinta Abril 30 11:26:43 BRT 2009


Ângelo Marcondes de Oliveira Neto. Li atento e extasiado o texto de vossa autoria. Vossemecê não falou demais, ao contrário descobrimos alguém que tem idéias corretas e aprouvesse a Deus Nosso Senhor, tivessemos diariamente opiniões tão sensatas. Parabéns. Fico no aguardo das próximas opiniões para absorver conhecimentos.
 


Date: Thu, 30 Apr 2009 07:31:12 -0300
From: angelomarcondes em gmail.com
To: gial em listas.interlegis.gov.br
Subject: Re: [gial] Trajédia que a gente não quer que aconteça

Senhores,

    Durante algum tempo me abstive desta discussão, mas foi impossível ficar quieto diante de tanta lenha na fogueira.
Pessoalmente, acho que o problema da educação no Brasil é muito mais cultural do que institucional. Já que a grande maioria das famílias e professores tende a achar que a educação é apenas para ser utilizada para passar nas provas, no vestibular e nos concursos. E acabam não aprendendo que a edudação agrega valor em nossas vidas e em nossos pequenos mundos, ou seja, faz com que olhemos o mundo com olhos de águia.
Infelizmente, é pouco incutido em nossas crianças o gosto pela sabedoria e pelo conhecimento. E quando isso acontece, as crianças são chamadas de nerds ou CDFs.
   Pergunte para qualquer criança. Para que você vai a escola estudar? A grande maioria, vai dizer que é apenas para passar de ano e alguns poucos vão dizer que é para aprender.
   Pergunte a um professor de um colégio público do interior, para que ele ensina? Ou irá dizer que é pago para isso ou para cumprir as metas governamentais. E raramente vão ouvir respostas positivas.
   Temos que mudar a cultura de que temos que temos "passar de ano", para a cultura de que "conhecimento é poder" e este "poder move montanhas".
   Uma coisa que me incomoda no sistema de edudação atual é a desvalorização da formação e a criação da classe de trabalho professor. Hoje temos professores de física, professores de matemática, professores de quimica, professores de biologia. E na verdade deveriamos ter fisicos, matemáticos, quimicos, biologos que atuam como professores, e não professsores de ... . Como alguém ensina aquilo que não vive? Ensina aquilo que não experimenta? Aquilo que não participa?
   Outra coisa, temos que valorizar nossos heróis do conhecimento, já que assim motivar as pessoas a quererem seguir este caminho. Da mesma forma que supervalorizamos nossos heróis do futebol, e com isso conseguimos uma legião de fãs. Quantos ainda se lembram, quem é o cientista quase premio Nobel, citado no e-mail anteriot? Quanto sabem qual é o escritor brasileiro que mais vende no mundo? Ou sequer o nome de nosso astronauta? E o nome do famoso físico que participou da descoberta do píon ?
   Agora, pergunte quem tá na final do paulistão? Ou os nomes dos personagens da novela das oito da globo?
   Isto a meu ver acontece, pelo fato que supervalorizamos o que não gera conhecimento.
   Agora é um papel do governo somente?
   Creio que não, é um papel de todos nós cidadões e podemos agir tanto isoladamente quanto coletivamente, o importante é fazer com que o conhecimento seja valorizado.

Falei demais
Abraços

Angelo Marcondes de Oliveira Neto.
Assessor de informática. - Câmara Municipal de Carneirinho.
www.cmcarneirinho.mg.gov.br  - uaigeek.blogspot.com
angelomarcondes em gmail.com - (34) 91414287 e 9978-5076
"Não existe inseticida para filosofia barata"



2009/4/29 <brnabud em usp.br>

Caro Sérgio e turma,

É engraçado (para não dizer cômico) quando você chama a atenção à
falta de ação incisiva na educação, pois bem, ela não faz falta, pois
quando falamos que a educação no país não vai bem, qualquer criancinha
(até minha filha) já tem na ponta da língua que estamos falando da
educação pública, de resto, flutuamos em céu de brigadeiro, veja você:
temos tecnologias exclusivas (vide petrobrás, embrapa, ITA, dentre
outros pólos de excelência), temos um cientista prestes a ganhar o
prêmio Nobel (vide Miguel Nicolelis que fez uma macaca mover um robô
do outro lado do mundo com a força do pensamento [da própria macaca]),
o ENEN consegue ranquear as melhores escolas privadas fazendo com que
ela aumente suas mensalidades, e o governo com suas provas malucas
(IDEB) não obrigam que muitas outras escolas privadas passem pelo
crivo desse mesmo teste, existe muita ONG voltada para a educação que
estão nas mãos das elites, ou seja, pra quê mudar.

Vejamos a saúde, por exemplo, o atendimento básico e exames básicos
(pra não dizer ridículos) é quase um mito para a população pobre
(qualquer convênio ´pífio dá conta dessa demanda), diferente de outras
políticas do SUS como o atendimento ao HIV e aos casos de Alta
Complexidade, sem contar a distribuição gratuita de medicamentos de
preços exorbitantes, onde qualquer classe-média, através de uma
representação jurídica, consegue ter acesso, no entanto, o câncer não
vê cor, classe, ou gênero. Conclusão: "temos um dos melhores sistemas
de saúde no mundo" e eu sei que já ouvimos muito isso.

Enfim, a falta de educação não está batendo na bunda de ninguém, como
você disse: " o povo está entendendo esses discursos?", é óbvio que
não, na verdade o grande desafio da educação no Brasil é recuperar uma
dívida social, dívida essa que a classe dominante nunca esteve
disposta a pagar. Mas de uma coisa eu tenho certeza, não será sempre
assim, e é essa certeza que me faz esfolar-me na graduação, na
educação que eu passo a minha filha, um dia, pode apostar, esse regime
não servirá mais, e qualquer faísca servirá para ascender o estopim na
sociedade, e quem viver...[   ]


Abraços

Bruno Abud

Citando sergio.varella em usp.br:




> Bom dia.
>
> Mais um discurso, e intervenção, cheio de boas intenções e tentativa
> de erudição ao mesmo tempo em que os resultados do ENEM comprovam que
> o ensino público é ruim. Erudição para quem? Quantos brasileiros
> conseguem entender o que foi falado? Além do mais, temos muitas peças
> desse tipo ao longo de nossa História.
>
> Executivo, Legislativo, Judiciário, mídia. Onde está o resto do país?
>
> Como sempre, falta um sentido prático para o discurso, o que fazer,
> qual a ação a ser tomada, qual é a proposta, qual o plano, quem faz o
> quê, quando começa, quais são os próximos passos, que medidas estão
> sendo efetivadas.
>
> Falar é fácil, fazer é que são elas!
>
> Sergio Luiz Antunes Varella.
> EPP2-Escritório para Projeto de Políticas Públicas.
>
>
> Citando "Prof. Dr. Marcelo Arno Nerling" <mnerling em usp.br>:
>
>> Prezados Inácio e Hélio,
>> não gostaria de perder a oportunidade de entrar nessa história
>> convosco, brasileiros atentos que cumprem um importante papela nessa
>> nova mídia que é a Internet.
>> Acredito que a Lista GIAL contribui para que passemos da condição de
>> atores para a condição de cidadãos. A fala do Senador é ótima. Com ele:
>> "Quando a gente fica na aparência, ao invés de ficar na substância, é
>> porque a gente não está querendo enfrentar o problema. E se a gente
>> não quer enfrentar o problema, a gente está se comportando, cada um de
>> nós, como figurantes de uma grande peça chamada História do Brasil,
>> que pode terminar numa tragédia que a gente não quer que aconteça, mas
>> que a gente faz tudo para que ela aconteça como a gente não quer".
>> Lutemos tod em s para que o descrédito não acabe com nossas Instituições!
>> Saudações democráticas,
>> --
>> Prof. Dr. Marcelo Arno Nerling
>> Curso de Gestão de Políticas Públicas
>> Escola de Artes, Ciências e Humanidades
>> Universidade de São Paulo - USP
>>
>>
>> Citando Hélio Leite Teixeira <heliolteixeira em gmail.com>:
>>
>>> Inacio,
>>>
>>> Não sou muito de elogiar políticos ou ocupantes de cargos públicos...
>>> Mas o cidadão Cristóvam Buarque é um caso a parte.
>>>
>>> Um dos homens públicos mais admiráveis do nosso país. Além da sua luta
>>> contra a ditadura militar ele é um dos poucos políticos que dedica
>>> praticamente todo o seu mandato para defender a questão mais
>>> importante para o desenvolvimento do país, a Educação. E ainda é
>>> criticado por isso, dá pra acreditar????
>>>
>>> Para quem se interessa pelo assunto educação e ainda não conhece as
>>> posições e idéias defendidas por ele, aqui vai uma dica:
>>>
>>> http://comunicacaochapabranca.com.br/?p=5183
>>>
>>> Inacio, parabéns por sua brilhante intervenção!!!
>>>
>>> Grande abraço,
>>>
>>> Hélio Teixeira
>>> ALE/AL
>>>
>>> 2009/4/28  <inaciojunior em usp.br>:
>>>> Car em s,
>>>>
>>>> Semana passada cheguei em casa tarde da noite e cansado dei uma
>>>> cochilada no sofá. Por acaso acabei deixando a televisão ligada na TV
>>>> senado, quando eu acordei ouvindo o Cristóvam Buarque fazendo um dos
>>>> pronunciamentos mais belos que já vi e que não via desde os tempos da
>>>> Ditadura Militar. Compartilho com vocês abaixo.
>>>>
>>>> Talvez valha uma reflexão para o legislativo local.
>>>>
>>>> Inté
>>>>
>>>> Inácio
>>>>
>>>>
>>>> O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem
>>>> revisão do orador.) ¿ Sr. Presidente e Senador Mão Santa, demorei
>>>> muito, na minha história de leitor, para gostar de ler peças de
>>>> teatro. Mas chego ao ponto ¿ talvez seja a idade que facilite ¿ que
>>>> terminei adquirindo esse gosto. Estou vendo, Senador Paim, como estão
>>>> parecidas as peças gregas, as peças trágicas de Shakespeare com os
>>>> jornais brasileiros de hoje. A sensação que tenho, ao ler os jornais,
>>>> é que estou lendo as tragédias especialmente gregas. Vou explicar por
>>>> quê.
>>>> Quando a gente assiste a uma peça de teatro, dessas mais trágicas, o
>>>> bom ator passa para nós a idéia de que está cumprindo um papel que
>>>> preferiria que não acontecesse no final. Ele passa a sensação ¿ cada
>>>> um deles ¿ de que seria melhor que, no final, não houvesse a morte, as
>>>> diversas formas como a tragédia se manifesta. Mas, apesar de ele
>>>> passar a idéia de que não deseja aquele final, ele cumpre cada passo
>>>> definido pelo dramaturgo para que o final seja trágico.
>>>> Estamos assim. Estamos hoje funcionando como se não quiséssemos que
>>>> houvesse um final trágico, mas fazendo tudo aquilo que é preciso para
>>>> que a tragédia aconteça. Vamos analisar quais são os setores.
>>>> Comecemos por nós próprios.
>>>> Nós sabemos que hoje, diante de nós, por cima de nós, está uma
>>>> quantidade de holofotes nos observando, uma transparência criada pela
>>>> força da democracia que faz com que cada pequeno ou grande pecado
>>>> cometido seja visto com a dimensão da gravidade que a mídia transmite.
>>>> Apesar disso, a gente continua fazendo gestos que nos levam a uma
>>>> imagem negativa lá fora. Nós estamos fazendo isso. Às vezes, coisas
>>>> simples, às vezes, coisas graves. Por exemplo, a ausência nossa... E
>>>> eu quero deixar claro que quando eu digo nossa, eu estou me incluindo.
>>>> Não há aqui ninguém melhor do que o outro. Nós somos aqui um
>>>> Parlamento. Nossa ausência. A gente está vindo dois, três dias por
>>>> semana aqui, salvo um ou outro. Mas mesmo com esse um ou outro que vem
>>>> aqui, a gente não tem chance de votar, de debater, de analisar, de
>>>> enfrentar. A gente faz um discurso, e cai no vazio, porque ninguém
>>>> assiste e, os poucos que assistem, não respondem, não discutem, não
>>>> confrontam, que é a finalidade de um parlamento.
>>>> Nós estamos cometendo uma forma de comportamento que leva,
>>>> necessariamente, à descrença. E a descrença com o Congresso é uma
>>>> tragédia para a democracia.
>>>> O próprio assunto, Senador Mão Santa, sobre o qual alguns já falaram
>>>> hoje, das passagens para as famílias, eu quero dizer, em primeiro
>>>> lugar, que nós, Senadores de Brasília, eu e os outros dois, a gente
>>>> não deve receber passagem nenhuma para familiares. Nenhuma, nenhuma,
>>>> nenhuma. Agora, os Parlamentares de outros Estados deviam ser
>>>> obrigados a trazer suas famílias para viver em Brasília. Deviam
>>>> receber, pelo menos, uma passagem por semestre para todos os seus
>>>> familiares, da sua cidade para Brasília, como fazem as empresas quando
>>>> transferem um executivo. E uma das falhas dessa tragédia que se
>>>> anuncia é a mudança no comportamento nosso, dos Parlamentares, de um
>>>> tempo passado em que as famílias vinham viver aqui e os Parlamentares
>>>> ficavam o tempo todo aqui, com essa mania de hoje de vir e, toda
>>>> semana, ir visitar a família lá fora, em sua casa.
>>>> Isso está nos afastando, entre nós Parlamentares, está afastando os
>>>> Parlamentares não apenas das suas famílias, mas da possibilidade de
>>>> exercermos o papel de Parlamentares, que é parlamentar, que é se
>>>> encontrar, que é conviver, que é debater.
>>>> Nós parecemos hoje personagens de uma tragédia grega, fazendo aquilo
>>>> que a gente não quer que leve a um desenlace trágico, mas fazendo
>>>> mesmo assim, esperando que, no final, o público chore com aquilo que a
>>>> gente representou. Nós não estamos trazendo aqui os grandes temas
>>>> nacionais, não estamos debatendo a pauta do povo, salvo uma ou outra
>>>> vez em que a gente fez, graças inclusive ao Senador Paim, as vigílias.
>>>> Mas, cadê as outras? Fizemos a dos aposentados, mas cadê a vigília
>>>> para discutir a situação das crianças? Cadê a vigília para discutir a
>>>> situação da infraestrutura? Cadê a vigília para discutir o próprio
>>>> Congresso, numa noite inteira, todo mundo debatendo? Além disso, vamos
>>>> lembrar bem, as nossas vigílias tinham cinco, seis pessoas aqui
>>>> dentro. Nós estamos nos comportando como figurantes de uma tragédia
>>>> que a gente não quer que aconteça, mas a gente cumpre o papel para
>>>> isso. Mas não venham dizer que somos apenas nós os congressistas.
>>>> Vamos olhar o Poder Executivo. O Poder Executivo está-se comportando
>>>> como se não desse atenção, como se quisesse evitar uma tragédia, mas
>>>> faz tudo para que aconteça.
>>>> As medidas provisórias que paralisam o Congresso. As medidas
>>>> provisórias que substituem os projetos dos próprios congressistas.
>>>> O excesso de publicidade do Governo para mostrar como se só o
>>>> Executivo funcionasse neste País e nós fôssemos um apêndice secundário
>>>> do processo democrático.
>>>> O Presidente da República, provavelmente sem querer, está sendo hoje
>>>> um figurante de uma tragédia que se anuncia, que a gente caminha para
>>>> acontecer, que é o descrédito nas instituições.
>>>> Mas não só o Poder Executivo, o Judiciário também. E eu não falo
>>>> apenas do confronto entre dois juízes diante das televisões, ou pelo
>>>> menos diante da TV Justiça. Não, eu falo mais grave que isso. Falo,
>>>> por exemplo, que nós estamos, hoje, naquele choque entre juízes,
>>>> analisando se foi ou não falta de decoro. E não analisando se tem ou
>>>> não verdade por trás do que eles disseram.
>>>> Quando a gente fica na aparência, ao invés de ficar na substância, é
>>>> porque a gente não está querendo enfrentar o problema. E se a gente
>>>> não quer enfrentar o problema, a gente está-se comportando, cada um de
>>>> nós, como figurantes de uma grande peça chamada História do Brasil,
>>>> que pode terminar numa tragédia que a gente não quer que aconteça, mas
>>>> que a gente faz tudo para que ela aconteça como a gente não quer.
>>>> E quando a Justiça se intromete no Poder Legislativo como tem feito
>>>> sistematicamente? E quando a Justiça manda tirar as algemas dos ricos
>>>> e fecha os olhas às algemas nos braços dos pobres? Como se algema não
>>>> pudesse sujar os punhos de seda dos ricos, mas pudesse ser colocada
>>>> nos punhos dos pobres que vão sem camisa para a frente da televisão.
>>>> A Justiça, quando faz isso, está colaborando para uma tragédia, a
>>>> tragédia na descrença das instituições democráticas. Não estão
>>>> querendo que aconteça o trágico, mas estão agindo para que ele, no
>>>> final, aconteça.
>>>> Nós vimos três setores que estão fazendo isso.
>>>> Mas a mídia também. A mídia. Não por dizer o que diz, mas por
>>>> limitar-se quase que apenas ao dizer o que diz. A mídia esqueceu os
>>>> debates que a gente tem que fazer neste País, entre um país velho que
>>>> tem que morrer e um novo que tem que surgir, o velho da destruição
>>>> ecológica, o velho da concentração de renda, para surgir o novo, do
>>>> desenvolvimento equilibrado social e ecologicamente com democracia. A
>>>> gente não vê esse debate na mídia. Será que ninguém está falando isso?
>>>> Ou é a mídia que se acostumou a uma única pauta, necessária, mas
>>>> insuficiente, que é a pauta do escândalo.
>>>> Nós temos hoje uma relação que tem tudo a ver com o teatro, é uma
>>>> relação sadomasoquista entre políticos e jornalistas. Hoje é uma
>>>> relação sadomasoquista. E nós somos os masoquistas. E eles são os
>>>> sádicos. Nós somos os masoquistas porque fazemos coisas que levam a
>>>> mídia, corretamente, a denunciar, e, depois, nós sofremos com a
>>>> denúncia que eles fazem. Mas o pior é que eles sentem prazer em
>>>> denunciar as coisas que são denunciadas. Eu não vejo que a mídia diz:
>>>> ¿Eu tenho que dizer essas coisas feias que estão acontecendo com
>>>> tristeza e lamentando, porque era melhor que este Congresso fosse
>>>> feito apenas de santos¿. Eu não vejo. A sensação que tenho é que há
>>>> uma certa alegria em descobrir mais um crime, mais um pecado, mais um
>>>> comportamento errado, e isso é característica dos sádicos. Nós somos
>>>> os masoquistas. Nós estamos dando as armas para eles. A mídia não tem
>>>> mentido, o que a mídia tem feito é esquecido o resto da verdade que
>>>> acontece nesta Casa que defende a democracia. Vê-se que cada um de nós
>>>> está fazendo a sua parte, Senador Mão Santa, para um desenlace
>>>> negativo, trágico, mas a gente está fazendo cada um a sua parte, como
>>>> os personagens das tragédias gregas ou das tragédias de Shakespeare: o
>>>> autor age como se ele não quisesse que o final fosse aquela situação.
>>>> Quer dizer, ele não deixa, não interrompe no meio, não muda o rumo
>>>> traçado pelo dramaturgo. Nós estamos como se fôssemos os atores de uma
>>>> grande peça inventada por alguém neste País ou neste mundo que é o
>>>> destino do Brasil.
>>>> Vou mostrar que há mais indicações disso, são as indicações mais antigas.
>>>> Anteontem não ouvi ninguém comentar, mas nós comemoramos 509 anos da
>>>> chegada dos europeus aqui, em terras brasileiras. E esses 509 anos
>>>> parecem ser uma imensa peça trágica teatral, que se limitou no começo
>>>> ¿ e não mudou muito ¿ a matar e a escravizar os índios e a saquear a
>>>> terra, porque foi isso o que aconteceu no início da colonização:
>>>> matamos. E veja que eu continuo colocando no plural: incluindo-me como
>>>> parte desses portugueses, descendentes todos nós que somos deles,
>>>> direta ou indiretamente. Nós nos dedicamos a arrancar pau-brasil e a
>>>> matar índios; às vezes, matando-os fisicamente e, às vezes, matando-os
>>>> pela conversão a uma religião que entrava forçosamente na alma deles,
>>>> porque a religião deles era outra. Também é uma forma de canibalismo
>>>> fazer certas conversões. Canibalismo não é só comer carne, como os
>>>> índios comeram a de um bispo; canibalismo também tem na alma, quando
>>>> um bispo converte, de uma maneira forçada, um grupo de outra religião.
>>>> E de lá para cá? De lá para cá, nós concentramos nossa história,
>>>> durante 480 anos quase, a explorar, a matar, a saquear ¿ e não só os
>>>> índios ¿ os negros africanos. Estava na cara, como se diz, que não
>>>> iria dar certo uma economia com base na escravidão. Não dá certo
>>>> eticamente, não dá certo moralmente, não dá certo nem economicamente
>>>> manter todos aqueles milhões de escravos fora da economia, apenas como
>>>> se fossem máquinas, sem consumir. O mercado é inaproveitado.
>>>> Um mercado inaproveitado. Não podia dar certo e não deu certo. Além
>>>> disso, fizemos o mesmo, só que substituindo o pau-brasil, que a gente
>>>> mandava para fora, pela cana, pelo algodão, pelo ouro, pelo café, mas
>>>> uma economia baseada na exportação de bens primários, quando os outros
>>>> países começavam a industrialização. Tinha que dar errado. Mas nós do
>>>> passado brasileiros, nós dirigentes no passado brasileiros agimos como
>>>> se fôssemos parte de uma tragédia predefinida, escrita por um
>>>> dramaturgo como se nós não tivéssemos o poder de mudar o destino dos
>>>> personagens. Porque é isso que caracteriza os atores. Eles não têm o
>>>> poder de mudar o destino dos personagens, eles sofrem com aquele
>>>> destino que vai acontecer, mas eles dizem todas palavras, eles colocam
>>>> toda a poesia que um dramaturgo escreveu.
>>>> Essa é a sensação que tenho hoje como político. Que eu estou dizendo
>>>> as palavras que foram traçadas para serem ditas, fazendo aquilo que
>>>> fomos traçados para fazer, como se não tivéssemos o poder de mudar a
>>>> história porque a história é uma peça de teatro. Essa é a sensação que
>>>> tenho. E chegamos hoje aonde nessa peça? Chegamos hoje a um País que
>>>> tem 14 milhões de analfabetos adultos. Chegamos a uma tragédia. Quem
>>>> não percebe? Chegamos a um País que está em guerra civil e a gente
>>>> parece que não percebe. Chegamos a um País onde apenas um terço das
>>>> crianças terminam o segundo grau e sem qualidade suficiente para
>>>> enfrentar o mundo de hoje, como o próprio Senador Paim falou mais cedo
>>>> ao insistir na criação de um fundo para a escola do ensino técnico.
>>>> Chegamos a um País em que, 500 anos depois, comemoramos anteontem,
>>>> continua-se exportando basicamente ferro e soja, agricultura e pedras,
>>>> como fizemos no passado. E aí alguns dizem: mas já exportamos
>>>> automóveis e aviões. Automóveis e aviões que são importados,
>>>> especialmente os automóveis, sem nenhuma contribuição, quase,
>>>> científica e tecnológica brasileira. E aviões que têm, sim, uma
>>>> pequena contribuição. Tem, não há dúvida, graças a uma escola chamada
>>>> Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Mas, mesmo assim, nos nossos
>>>> aviões, dentro deles, há um alto conteúdo de saber, inteligência e
>>>> conhecimento importados, não inventados aqui dentro.
>>>> Continuamos um País cuja tragédia está em não sermos um criador de
>>>> conhecimento, não sermos um criador de inteligência. Não temos um
>>>> único Prêmio Nobel neste País e não há nenhum de nós que esteja por
>>>> aí, no mundo científico, cultural, que dê a impressão que vá ganhar o
>>>> Nobel nos próximos 20 ou 30 anos. Pode até ser, de repente, mas,
>>>> aparentemente, o Brasil não vai ganhar nenhum Prêmio Nobel nos
>>>> próximos 20 ou 30 anos, porque, em geral, sabemos, décadas antes,
>>>> quais são aqueles que poderão ganhar um Nobel como grande
>>>> reconhecimento mundial do seu saber. Não temos hoje. Temos cientistas,
>>>> temos filósofos, temos escritores, mas, aparentemente, nenhum que nas
>>>> próximas décadas possa-se dizer: este é o nome que vai receber o
>>>> coroamento do conhecimento mundial. Podemos até ter, de repente, algum
>>>> Prêmio Nobel da Paz, porque a paz, em geral, tem por causa a tragédia.
>>>> Os Prêmios Nobel da Paz acontecem por causa das guerras, por causa da
>>>> miséria, por causa da destruição ecológica. Não por causa do saber,
>>>> não por causa da inteligência, não por causa da ciência e da tecnologia.
>>>> Estamos vivendo uma grande tragédia nesse imenso palco de 8,5 milhões
>>>> de Km², com quase 200 milhões de atores, porque eu falei primeiro
>>>> daqueles que são os responsáveis: nós, Parlamentares, Poder Executivo
>>>> e Poder Judiciário. Vamos analisar também. Todo o Poder Judiciário,
>>>> todo o Poder Legislativo e todo o Poder Executivo saem do povo,
>>>> especialmente o Executivo e o Legislativo, que são eleitos pelo povo.
>>>> Então, o povo faz parte também dessa imensa tragédia. E esse povo já
>>>> demonstrou, mais até do que nós, que, quando é preciso, ele consegue
>>>> mudar o rumo da história. Eles fizeram isso em 1945, quando foram para
>>>> a rua a fim de trazer de volta a democracia. Eles fizeram isso quando
>>>> foram para a rua para criar a Petrobras. Eles foram para a rua pelas
>>>> eleições diretas. Não foram para a rua, mas desligaram o interruptor
>>>> naquela grande tragédia do apagão elétrico que nós vivemos. O povo
>>>> colaborou. O povo até que, de vez em quando, dá uma virada na História
>>>> deste País, muda a tragédia que foi definida por cima, como se
>>>> fôssemos impotentes, como se a História não fosse a História, como se
>>>> a História fosse uma peça de teatro escrita previamente e dando a cada
>>>> um de nós a responsabilidade de cumprir o nosso papel, sem poder, sem
>>>> imaginação, apenas com a capacidade de representar aquilo que outros
>>>> querem dizer pelas nossas bocas.
>>>> Fizemos 509 anos dois dias atrás. E fizemos em um processo que não tem
>>>> essas diferenças todas, quando vemos a desigualdade, quando vemos as
>>>> características da nossa sociedade. Claro que não é mais todo negro
>>>> escravo, mas a maioria deles fora de uma escola de qualidade e poucos
>>>> na universidade. Não houve grandes saltos. Claro que a escola hoje não
>>>> é mais apenas para os filhos dos ricos; existem escolas para os filhos
>>>> dos pobres, mas que não podem ser chamadas, com clareza, de escola,
>>>> porque muitas delas não passam de restaurantes mirins para distribuir
>>>> a merenda escolar e não para que se estude nelas.
>>>> É tão claro que não mudamos; que o projeto que está circulando neste
>>>> Congresso para que os filhos dos Parlamentares, Deputados, Vereadores,
>>>> Senadores e Prefeitos devam estudar em escola pública é visto como se
>>>> fosse uma demagogia, como se fosse uma impossibilidade.
>>>> Da mesma maneira que neste País da tragédia, no sentido, não da
>>>> maldade, da ruindade, mas no sentido da impotência em mudar o seu
>>>> rumo, neste mesmo País, não faz muito, falar em abolir a escravidão
>>>> era considerado demagogia, porque mesmo aqueles, Senador Paim, que
>>>> defendiam os escravos, eles não defendiam a abolição. Mesmo aqueles
>>>> que defendiam os escravos, eles defendiam menos chicotadas, eles
>>>> defendiam que os escravos não pudessem ser assassinados, inclusive,
>>>> chegaram a defender que a família não poderia ser vendida
>>>> separadamente, tinha que ser vendida em bloco. Chegaram a defender
>>>> que, passados 60 anos, eles ficariam livres, porque já não podiam
>>>> trabalhar. Chegaram a defender que o filho da escrava não seria
>>>> escravo, mas não defendiam a Abolição da Escravatura, porque isso era
>>>> considerado impossível, porque isso era considerado uma
>>>> impossibilidade, porque isso era considerado ferir o direito do dono
>>>> do escravo, que tinha gasto um dinheirão para comprar os seus escravos
>>>> e, de repente, ao abolir a escravidão, isso faria com que perdesse
>>>> todo o seu capital. Era considerado demagogia, era considerado
>>>> impossibilidade, era considerado falta de liberdade dar liberdade aos
>>>> escravos. Dar liberdade aos escravos era considerado tirar liberdade
>>>> dos donos dos escravos. Essa era uma tragédia, mas todos colaboravam
>>>> para isso, até que de vez em quando surgia uma voz que mudava, como
>>>> surgiu Joaquim Nabuco, que passou a defender a abolição e foi visto
>>>> como um demagogo durante anos e anos, até que terminou acontecendo.
>>>> Quase que por inanição a escravidão se acabou, porque já não se
>>>> justificava ter que comprar escravos, já que havia muita gente
>>>> querendo se vender por um salário de nada. Para que gastar dinheiro
>>>> trazendo escravos de longe se eles moravam por perto? Como hoje, para
>>>> que buscar um trabalhador na África, escravo, se nas favelas eles
>>>> estão dispostos a trabalhar por qualquer valor? Nós passamos a ideia,
>>>> o nosso Brasil, de que não somos um País com uma história sobre a qual
>>>> temos o poder, sobre a qual podemos mudar de rumo. Nós passamos a
>>>> ideia de que somos 200 milhões de atores de uma tragédia previamente
>>>> escrita e que nosso papel é cumprir o que essa tragédia já tem
>>>> predeterminada por um dramaturgo qualquer que não sabemos quem é.
>>>> Está na hora de pensarmos em mudar isso. Está na hora de assumirmos
>>>> que somos cidadãos, não atores. Nós somos cidadãos de uma história,
>>>> nem atores de uma peça teatral, e que nós queremos que essa história
>>>> traga um País melhor e não um final trágico, como aqueles que estão
>>>> escritos previamente nas peças de teatro.
>>>> Para isso, vamos precisar mudar algumas coisas. Mas, antes de tentar
>>>> sugerir essas mudanças, Senador Paim, passo a palavra ao Senador Mão
>>>> Santa, que pediu um aparte.
>>>> O Sr. Mão Santa (PMDB ¿ PI) ¿ Senador Cristovam, V. Exª faz um feliz
>>>> discurso, sempre com muita cultura. Às vezes, é como diz o Antoine
>>>> Exupéry: a linguagem é fonte de desentendimento. Mas V. Exª, hoje ¿ a
>>>> felicidade foi tão grande ¿, vai buscar a tragédia grega e citou
>>>> Shakespeare, quando ele disse no Rei Lear: ¿Há algo de podre no Reino
>>>> da Dinamarca¿. E me impressionou mais quando ele foi adiante e disse:
>>>> ¿É melhor ser um mendigo em Nápoles do que Rei da Dinamarca¿. Paim, eu
>>>> fiquei tão perplexo que, na Itália, eu fui conhecer essa Nápoles. E,
>>>> realmente, a natureza foi Deus que fez, mas a cultura é o homem. E o
>>>> que é que tem em Nápoles? Nápoles é aquela elite do Renascimento:
>>>> Maquiavel, Dante Alighieri, Leonardo da Vinci. Todos moraram e
>>>> nasceram ali; conviveram, viram a cultura, e mudaram o mundo. De lá
>>>> veio o Renascimento. Mas V. Exª adverte com tanta firmeza o que nós
>>>> vivemos ¿ essa tragédia ¿ e culturalmente, porque a natureza é Deus, a
>>>> cultura somos nós. V. Exª fala em Prêmio Nobel da Paz. Quer dizer, a
>>>> gente fica perplexo, porque não tem Nobel de nada no Brasil. Bem aí no
>>>> Chile têm dois escritores: Uma mulher, Gabriela Mistral, cujos
>>>> escritos são mais de cunho religioso, e o Pablo Neruda, que foi
>>>> Senador da República. Então, nós temos muito a dever. Mas é aqui,
>>>> aqui, aqui. Essas instituições que têm que vir. O Pedro II dava o
>>>> ensinamento. Ele deixava a coroa e o cetro e ia assistir às sessões do
>>>> Senado. Então, o mundo é outro. Vamos ver se os nossos, os outros
>>>> Poderes, o Executivo de Sua Excelência o nosso Presidente Luiz Inácio,
>>>> tomam conhecimento do seu discurso. E o outro Poder, o Judiciário,
>>>> também. É com a grandeza da democracia que nós estamos a sonhar.
>>>> Martin Luther King tinha um sonho... Que sejam equipotentes, um
>>>> controlando o outro, um iluminando o outro. E, neste momento, você
>>>> ilumina o Poder Executivo e o Poder Judiciário.
>>>> O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF) ¿ Muito obrigado, Senador Mão Santa.
>>>> E não deixei de falar que a mídia precisa descobrir o outro lado dessa
>>>> tragédia, que é o lado do poder da gente de mudar as coisas, que é o
>>>> lado do que está sendo feito de bom no dia a dia.
>>>> Nós vivemos um momento em que, aparentemente, ninguém quer se sentir
>>>> capaz de reorientar os destinos da Nação.
>>>> E eu quero até concluir, Senador Paim, lembrando que me preocupa até
>>>> mesmo o debate que virá no próximo ano para escolher o próximo
>>>> Presidente ou Presidenta da República. A sensação que eu tenho é de
>>>> que vai ser o mais chato de todos os debates da História do Brasil.
>>>> Vai ser o mais monótono de todos os debates da História do Brasil,
>>>> porque vão se comportar não como se fossem líderes para reorientar a
>>>> História do Brasil. Eles vão se concentrar como se fossem os diretores
>>>> da peça da tragédia, como se já tivesse tudo prescrito, apenas eles
>>>> vão fazer mais projetos de infraestrutura, apenas eles viriam ou irão
>>>> fazer um pouco mais ou menos, mas para cumprir o mesmo destino,
>>>> destino que está prescrito numa frase que se diz no Brasil, como se
>>>> fosse um orgulho: o País do futuro.
>>>>
>>>> Que País do futuro? A gente quer um País que construa um futuro, um
>>>> País cujo presente está a construção do futuro; e não um País cujo
>>>> futuro virá automaticamente, como nas peças gregas, como nas peças
>>>> teatrais das tragédias a que nós assistimos.
>>>>
>>>> O Hamlet, que o Senador citou, não queria aparentemente, mas ele foi
>>>> programado pelo dramaturgo para vingar a morte do pai, e ele fez tudo
>>>> o que foi preciso para cumprir isso.
>>>> Em cada peça de teatro que a gente vê, os personagens fazem tudo que o
>>>> dramaturgo escreveu. Agora, num país, a gente não pode fazer aquilo
>>>> que foi escrito, porque não foi escrito. Está para ser escrito. Por
>>>> isso, não é peça de teatro, é História do Brasil.
>>>> Nós precisamos dar um grito de independência e deixarmos de ser
>>>> personagens de uma tragédia e virarmos personagens de uma história,
>>>> história com ¿h¿, história feita, história construída.
>>>> Mas, para isso, é preciso despertar. É preciso despertar cada um da
>>>> gente do poder que a gente não sabe que tem, do poder que a gente acha
>>>> que não tem, e termina se divertindo. Os Parlamentares nos divertimos
>>>> fazendo essa encenação teatral; o Poder Executivo se diverte mostrando
>>>> uma publicidade de uma encenação de realizações; o Poder Judiciário
>>>> faz uma encenação de que há justiça. E a mídia divulga pura encenação,
>>>> não penetra, não analisa, e a gente fica, cada um de nós, convivendo,
>>>> sofrendo, nessa relação que eu disse sadomasoquista, mas sem querer
>>>> dar o grito de que nós somos os condutores da história do País. Nós
>>>> não somos personagens impotentes. Nós não estamos aqui apenas para
>>>> dizer o que o dramaturgo escreveu. Nós estamos aqui para dizer aquilo
>>>> que o País precisa fazer, é nós sabemos o que é. Nós sabemos que é
>>>> preciso pormos juntos Executivo, Judiciário e a mídia. Bastaria dizer
>>>> que a gente estaria cumprindo o nosso papel, para, mais uma vez, fazer
>>>> aquilo que, em poucos momentos, nós fizemos, como em 1822, quando da
>>>> luta de um país colônia, que queria ser independente, e saiu
>>>> independente. Em 1889, quando um país monárquico e um republicano, e
>>>> saiu o republicano. Como em 1930, um país agrícola exportador, e
>>>> surgiu um país industrial. Outra vez nós precisamos fazer uma inflexão
>>>> na história, dobrar a história, conduzir a história e transformar este
>>>> País, de uma sociedade brutalmente desigual, como foi durante a
>>>> escravidão, brutalmente depredador da natureza, como fomos toda a
>>>> nossa história, preferindo o trabalho manual ao trabalho da
>>>> inteligência, preferindo produzir bens materiais a produzir bens
>>>> vindos da ciência e da tecnologia...
>>>>
>>>> Nós precisamos pegar esse país velho da indústria puramente mecânica,
>>>> depredadora e concentradora e daí fazer surgir um novo país, um novo
>>>> país da indústria do conhecimento, respeitando o meio ambiente,
>>>> distribuindo os produtos que nós temos aqui, tudo isso
>>>> democraticamente e com a participação de todos, da mídia denunciando
>>>> tudo de errado que existir e propondo um debate sobre tudo de novo que
>>>> ainda não existe, do povo votando corretamente e indo para a rua
>>>> quando for preciso para exigir os seus direitos e a construção de um
>>>> país melhor.
>>>>
>>>> E nós Parlamentares, não dando margem a tantas notícias ruins, pois
>>>> nos transformamos em verdadeira fábrica de notícias negativas sobre o
>>>> Congresso. E, ao mesmo tempo, mais do que isto: nos transformando em
>>>> condutores deste País, não atores de uma peça predeterminada, mas
>>>> autores de uma história ainda a ser construída.
>>>>
>>>> Eu vim aqui querendo comemorar os 509 anos em que aqui chegaram os
>>>> portugueses e eu gostaria de poder dizer que, junto com os índios, e,
>>>> depois, junto com os africanos, construíram este País. Mas não foi
>>>> assim. Chegaram aqui os portugueses e, contra os índios e contra os
>>>> africanos e destruindo a natureza, fizeram este País que a gente tem
>>>> hoje, que parece o resultado de uma grande tragédia.
>>>> Está em tempo, porque o País é eterno, sempre haverá tempo, mas o
>>>> triste é que a gente deixe passar pelas mãos da gente a chance de
>>>> ainda em nossa vida nos transformarmos, de atores, em autores,
>>>> transformarmos uma peça teatral em uma história nacional.
>>>> Ainda é tempo de este Congresso assumir esse papel.
>>>> Ainda é tempo de nós, que somos a Casa do povo, exigirmos isso do
>>>> Executivo e do Judiciário. E ainda é tempo de que o nosso
>>>> comportamento termine por inspirar a mídia, para que ela continue
>>>> sendo a denunciadora, mas também a incendiadora, a incendiadora de um
>>>> novo país, a incendiadora das ideias que iluminarão o novo país.
>>>> Hoje, ela não está sendo isso. Hoje, ela está sendo, corretamente ¿ e
>>>> não temos de reclamar de nada do que ela escreve ¿, apenas a
>>>> denunciadora, que é um papel importante da mídia. Ela tem de ser a
>>>> incendiadora no sentido de iluminar, por meio dos debates que ela
>>>> transmite, das ideias que ela não está descobrindo e que existem; ela
>>>> tem que iluminar um Brasil diferente, um Brasil em que os atores se
>>>> transformem em autores, em que as tragédias se transformem na glória,
>>>> um país onde a peça se transforme em história.
>>>> É isso, Sr. Presidente Paim, que eu gostaria de dizer nesta manhã de
>>>> sexta-feira, sem muitas ilusões de que vou deixar de ser um ator para
>>>> ser um autor. Não tenho essas ilusões mais, talvez pela idade, mas
>>>> tenho a grande esperança de, quem sabe, alguém com menos de 15 anos
>>>> que tenha hoje escutado o que eu falei possa despertar e dizer ¿eu não
>>>> quero ser apenas ator da grande peça Brasil; eu quero ser o autor da
>>>> grande história que o Brasil poderá vir a ter, mas não terá
>>>> automaticamente como muitos pensam¿.
>>>>
>>>> Autor   Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista /DF)
>>>> Data    24/04/2009      Casa    Senado Federal  Tipo    Discurso
>>>> http://www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=378863
>>>>
>>>>
>>>>
>>>> --
>>>> Talvez um rio manso surja esta manhã.
>>>> Talvez triunfe a verdade.
>>>> Talvez não seja demasiado tarde
>>>> para sair a semear
>>>> canções de outros tempos.
>>>>
>>>>                            Augusto Blanca
>>>>
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