[gial] Trajédia que a gente não quer que aconteça

Damiem Barbosa damiem.barbosa em gmail.com
Quinta Abril 30 08:28:46 BRT 2009


Não sei não...

O povo precisa entender discursos como este para que a educação venha a
tomar um rumo que se espera? Ou será que não é ao contrário? A educação deve
tomar o rumo que se espera para que o povo passe a entender discursos como
este.

O "sempre" aplaudido Cristovão Buarque foi candidato a Presidência da
República. Recebeu uma votação pífia.

Se aqui neste fórum, que entende-se ser frequentado por pessoas com vivência
política, dias atrás tinha gente gritando contra a Constituição e defendendo
plano de saúde privado para entidades públicas, o que podemos esperar do
povo(?)?

O povo(?) quer entender discursos como este?

Abraços

Damiem Barbosa
GPP-USP





2009/4/29 <brnabud em usp.br>

> Caro Sérgio e turma,
>
> É engraçado (para não dizer cômico) quando você chama a atenção à
> falta de ação incisiva na educação, pois bem, ela não faz falta, pois
> quando falamos que a educação no país não vai bem, qualquer criancinha
> (até minha filha) já tem na ponta da língua que estamos falando da
> educação pública, de resto, flutuamos em céu de brigadeiro, veja você:
> temos tecnologias exclusivas (vide petrobrás, embrapa, ITA, dentre
> outros pólos de excelência), temos um cientista prestes a ganhar o
> prêmio Nobel (vide Miguel Nicolelis que fez uma macaca mover um robô
> do outro lado do mundo com a força do pensamento [da própria macaca]),
> o ENEN consegue ranquear as melhores escolas privadas fazendo com que
> ela aumente suas mensalidades, e o governo com suas provas malucas
> (IDEB) não obrigam que muitas outras escolas privadas passem pelo
> crivo desse mesmo teste, existe muita ONG voltada para a educação que
> estão nas mãos das elites, ou seja, pra quê mudar.
>
> Vejamos a saúde, por exemplo, o atendimento básico e exames básicos
> (pra não dizer ridículos) é quase um mito para a população pobre
> (qualquer convênio ´pífio dá conta dessa demanda), diferente de outras
> políticas do SUS como o atendimento ao HIV e aos casos de Alta
> Complexidade, sem contar a distribuição gratuita de medicamentos de
> preços exorbitantes, onde qualquer classe-média, através de uma
> representação jurídica, consegue ter acesso, no entanto, o câncer não
> vê cor, classe, ou gênero. Conclusão: "temos um dos melhores sistemas
> de saúde no mundo" e eu sei que já ouvimos muito isso.
>
> Enfim, a falta de educação não está batendo na bunda de ninguém, como
> você disse: " o povo está entendendo esses discursos?", é óbvio que
> não, na verdade o grande desafio da educação no Brasil é recuperar uma
> dívida social, dívida essa que a classe dominante nunca esteve
> disposta a pagar. Mas de uma coisa eu tenho certeza, não será sempre
> assim, e é essa certeza que me faz esfolar-me na graduação, na
> educação que eu passo a minha filha, um dia, pode apostar, esse regime
> não servirá mais, e qualquer faísca servirá para ascender o estopim na
> sociedade, e quem viver...[   ]
>
>
> Abraços
>
> Bruno Abud
>
> Citando sergio.varella em usp.br:
>
> > Bom dia.
> >
> > Mais um discurso, e intervenção, cheio de boas intenções e tentativa
> > de erudição ao mesmo tempo em que os resultados do ENEM comprovam que
> > o ensino público é ruim. Erudição para quem? Quantos brasileiros
> > conseguem entender o que foi falado? Além do mais, temos muitas peças
> > desse tipo ao longo de nossa História.
> >
> > Executivo, Legislativo, Judiciário, mídia. Onde está o resto do país?
> >
> > Como sempre, falta um sentido prático para o discurso, o que fazer,
> > qual a ação a ser tomada, qual é a proposta, qual o plano, quem faz o
> > quê, quando começa, quais são os próximos passos, que medidas estão
> > sendo efetivadas.
> >
> > Falar é fácil, fazer é que são elas!
> >
> > Sergio Luiz Antunes Varella.
> > EPP2-Escritório para Projeto de Políticas Públicas.
> >
> >
> > Citando "Prof. Dr. Marcelo Arno Nerling" <mnerling em usp.br>:
> >
> >> Prezados Inácio e Hélio,
> >> não gostaria de perder a oportunidade de entrar nessa história
> >> convosco, brasileiros atentos que cumprem um importante papela nessa
> >> nova mídia que é a Internet.
> >> Acredito que a Lista GIAL contribui para que passemos da condição de
> >> atores para a condição de cidadãos. A fala do Senador é ótima. Com ele:
> >> "Quando a gente fica na aparência, ao invés de ficar na substância, é
> >> porque a gente não está querendo enfrentar o problema. E se a gente
> >> não quer enfrentar o problema, a gente está se comportando, cada um de
> >> nós, como figurantes de uma grande peça chamada História do Brasil,
> >> que pode terminar numa tragédia que a gente não quer que aconteça, mas
> >> que a gente faz tudo para que ela aconteça como a gente não quer".
> >> Lutemos tod em s para que o descrédito não acabe com nossas Instituições!
> >> Saudações democráticas,
> >> --
> >> Prof. Dr. Marcelo Arno Nerling
> >> Curso de Gestão de Políticas Públicas
> >> Escola de Artes, Ciências e Humanidades
> >> Universidade de São Paulo - USP
> >>
> >>
> >> Citando Hélio Leite Teixeira <heliolteixeira em gmail.com>:
> >>
> >>> Inacio,
> >>>
> >>> Não sou muito de elogiar políticos ou ocupantes de cargos públicos...
> >>> Mas o cidadão Cristóvam Buarque é um caso a parte.
> >>>
> >>> Um dos homens públicos mais admiráveis do nosso país. Além da sua luta
> >>> contra a ditadura militar ele é um dos poucos políticos que dedica
> >>> praticamente todo o seu mandato para defender a questão mais
> >>> importante para o desenvolvimento do país, a Educação. E ainda é
> >>> criticado por isso, dá pra acreditar????
> >>>
> >>> Para quem se interessa pelo assunto educação e ainda não conhece as
> >>> posições e idéias defendidas por ele, aqui vai uma dica:
> >>>
> >>> http://comunicacaochapabranca.com.br/?p=5183
> >>>
> >>> Inacio, parabéns por sua brilhante intervenção!!!
> >>>
> >>> Grande abraço,
> >>>
> >>> Hélio Teixeira
> >>> ALE/AL
> >>>
> >>> 2009/4/28  <inaciojunior em usp.br>:
> >>>> Car em s,
> >>>>
> >>>> Semana passada cheguei em casa tarde da noite e cansado dei uma
> >>>> cochilada no sofá. Por acaso acabei deixando a televisão ligada na TV
> >>>> senado, quando eu acordei ouvindo o Cristóvam Buarque fazendo um dos
> >>>> pronunciamentos mais belos que já vi e que não via desde os tempos da
> >>>> Ditadura Militar. Compartilho com vocês abaixo.
> >>>>
> >>>> Talvez valha uma reflexão para o legislativo local.
> >>>>
> >>>> Inté
> >>>>
> >>>> Inácio
> >>>>
> >>>>
> >>>> O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem
> >>>> revisão do orador.) ¿ Sr. Presidente e Senador Mão Santa, demorei
> >>>> muito, na minha história de leitor, para gostar de ler peças de
> >>>> teatro. Mas chego ao ponto ¿ talvez seja a idade que facilite ¿ que
> >>>> terminei adquirindo esse gosto. Estou vendo, Senador Paim, como estão
> >>>> parecidas as peças gregas, as peças trágicas de Shakespeare com os
> >>>> jornais brasileiros de hoje. A sensação que tenho, ao ler os jornais,
> >>>> é que estou lendo as tragédias especialmente gregas. Vou explicar por
> >>>> quê.
> >>>> Quando a gente assiste a uma peça de teatro, dessas mais trágicas, o
> >>>> bom ator passa para nós a idéia de que está cumprindo um papel que
> >>>> preferiria que não acontecesse no final. Ele passa a sensação ¿ cada
> >>>> um deles ¿ de que seria melhor que, no final, não houvesse a morte, as
> >>>> diversas formas como a tragédia se manifesta. Mas, apesar de ele
> >>>> passar a idéia de que não deseja aquele final, ele cumpre cada passo
> >>>> definido pelo dramaturgo para que o final seja trágico.
> >>>> Estamos assim. Estamos hoje funcionando como se não quiséssemos que
> >>>> houvesse um final trágico, mas fazendo tudo aquilo que é preciso para
> >>>> que a tragédia aconteça. Vamos analisar quais são os setores.
> >>>> Comecemos por nós próprios.
> >>>> Nós sabemos que hoje, diante de nós, por cima de nós, está uma
> >>>> quantidade de holofotes nos observando, uma transparência criada pela
> >>>> força da democracia que faz com que cada pequeno ou grande pecado
> >>>> cometido seja visto com a dimensão da gravidade que a mídia transmite.
> >>>> Apesar disso, a gente continua fazendo gestos que nos levam a uma
> >>>> imagem negativa lá fora. Nós estamos fazendo isso. Às vezes, coisas
> >>>> simples, às vezes, coisas graves. Por exemplo, a ausência nossa... E
> >>>> eu quero deixar claro que quando eu digo nossa, eu estou me incluindo.
> >>>> Não há aqui ninguém melhor do que o outro. Nós somos aqui um
> >>>> Parlamento. Nossa ausência. A gente está vindo dois, três dias por
> >>>> semana aqui, salvo um ou outro. Mas mesmo com esse um ou outro que vem
> >>>> aqui, a gente não tem chance de votar, de debater, de analisar, de
> >>>> enfrentar. A gente faz um discurso, e cai no vazio, porque ninguém
> >>>> assiste e, os poucos que assistem, não respondem, não discutem, não
> >>>> confrontam, que é a finalidade de um parlamento.
> >>>> Nós estamos cometendo uma forma de comportamento que leva,
> >>>> necessariamente, à descrença. E a descrença com o Congresso é uma
> >>>> tragédia para a democracia.
> >>>> O próprio assunto, Senador Mão Santa, sobre o qual alguns já falaram
> >>>> hoje, das passagens para as famílias, eu quero dizer, em primeiro
> >>>> lugar, que nós, Senadores de Brasília, eu e os outros dois, a gente
> >>>> não deve receber passagem nenhuma para familiares. Nenhuma, nenhuma,
> >>>> nenhuma. Agora, os Parlamentares de outros Estados deviam ser
> >>>> obrigados a trazer suas famílias para viver em Brasília. Deviam
> >>>> receber, pelo menos, uma passagem por semestre para todos os seus
> >>>> familiares, da sua cidade para Brasília, como fazem as empresas quando
> >>>> transferem um executivo. E uma das falhas dessa tragédia que se
> >>>> anuncia é a mudança no comportamento nosso, dos Parlamentares, de um
> >>>> tempo passado em que as famílias vinham viver aqui e os Parlamentares
> >>>> ficavam o tempo todo aqui, com essa mania de hoje de vir e, toda
> >>>> semana, ir visitar a família lá fora, em sua casa.
> >>>> Isso está nos afastando, entre nós Parlamentares, está afastando os
> >>>> Parlamentares não apenas das suas famílias, mas da possibilidade de
> >>>> exercermos o papel de Parlamentares, que é parlamentar, que é se
> >>>> encontrar, que é conviver, que é debater.
> >>>> Nós parecemos hoje personagens de uma tragédia grega, fazendo aquilo
> >>>> que a gente não quer que leve a um desenlace trágico, mas fazendo
> >>>> mesmo assim, esperando que, no final, o público chore com aquilo que a
> >>>> gente representou. Nós não estamos trazendo aqui os grandes temas
> >>>> nacionais, não estamos debatendo a pauta do povo, salvo uma ou outra
> >>>> vez em que a gente fez, graças inclusive ao Senador Paim, as vigílias.
> >>>> Mas, cadê as outras? Fizemos a dos aposentados, mas cadê a vigília
> >>>> para discutir a situação das crianças? Cadê a vigília para discutir a
> >>>> situação da infraestrutura? Cadê a vigília para discutir o próprio
> >>>> Congresso, numa noite inteira, todo mundo debatendo? Além disso, vamos
> >>>> lembrar bem, as nossas vigílias tinham cinco, seis pessoas aqui
> >>>> dentro. Nós estamos nos comportando como figurantes de uma tragédia
> >>>> que a gente não quer que aconteça, mas a gente cumpre o papel para
> >>>> isso. Mas não venham dizer que somos apenas nós os congressistas.
> >>>> Vamos olhar o Poder Executivo. O Poder Executivo está-se comportando
> >>>> como se não desse atenção, como se quisesse evitar uma tragédia, mas
> >>>> faz tudo para que aconteça.
> >>>> As medidas provisórias que paralisam o Congresso. As medidas
> >>>> provisórias que substituem os projetos dos próprios congressistas.
> >>>> O excesso de publicidade do Governo para mostrar como se só o
> >>>> Executivo funcionasse neste País e nós fôssemos um apêndice secundário
> >>>> do processo democrático.
> >>>> O Presidente da República, provavelmente sem querer, está sendo hoje
> >>>> um figurante de uma tragédia que se anuncia, que a gente caminha para
> >>>> acontecer, que é o descrédito nas instituições.
> >>>> Mas não só o Poder Executivo, o Judiciário também. E eu não falo
> >>>> apenas do confronto entre dois juízes diante das televisões, ou pelo
> >>>> menos diante da TV Justiça. Não, eu falo mais grave que isso. Falo,
> >>>> por exemplo, que nós estamos, hoje, naquele choque entre juízes,
> >>>> analisando se foi ou não falta de decoro. E não analisando se tem ou
> >>>> não verdade por trás do que eles disseram.
> >>>> Quando a gente fica na aparência, ao invés de ficar na substância, é
> >>>> porque a gente não está querendo enfrentar o problema. E se a gente
> >>>> não quer enfrentar o problema, a gente está-se comportando, cada um de
> >>>> nós, como figurantes de uma grande peça chamada História do Brasil,
> >>>> que pode terminar numa tragédia que a gente não quer que aconteça, mas
> >>>> que a gente faz tudo para que ela aconteça como a gente não quer.
> >>>> E quando a Justiça se intromete no Poder Legislativo como tem feito
> >>>> sistematicamente? E quando a Justiça manda tirar as algemas dos ricos
> >>>> e fecha os olhas às algemas nos braços dos pobres? Como se algema não
> >>>> pudesse sujar os punhos de seda dos ricos, mas pudesse ser colocada
> >>>> nos punhos dos pobres que vão sem camisa para a frente da televisão.
> >>>> A Justiça, quando faz isso, está colaborando para uma tragédia, a
> >>>> tragédia na descrença das instituições democráticas. Não estão
> >>>> querendo que aconteça o trágico, mas estão agindo para que ele, no
> >>>> final, aconteça.
> >>>> Nós vimos três setores que estão fazendo isso.
> >>>> Mas a mídia também. A mídia. Não por dizer o que diz, mas por
> >>>> limitar-se quase que apenas ao dizer o que diz. A mídia esqueceu os
> >>>> debates que a gente tem que fazer neste País, entre um país velho que
> >>>> tem que morrer e um novo que tem que surgir, o velho da destruição
> >>>> ecológica, o velho da concentração de renda, para surgir o novo, do
> >>>> desenvolvimento equilibrado social e ecologicamente com democracia. A
> >>>> gente não vê esse debate na mídia. Será que ninguém está falando isso?
> >>>> Ou é a mídia que se acostumou a uma única pauta, necessária, mas
> >>>> insuficiente, que é a pauta do escândalo.
> >>>> Nós temos hoje uma relação que tem tudo a ver com o teatro, é uma
> >>>> relação sadomasoquista entre políticos e jornalistas. Hoje é uma
> >>>> relação sadomasoquista. E nós somos os masoquistas. E eles são os
> >>>> sádicos. Nós somos os masoquistas porque fazemos coisas que levam a
> >>>> mídia, corretamente, a denunciar, e, depois, nós sofremos com a
> >>>> denúncia que eles fazem. Mas o pior é que eles sentem prazer em
> >>>> denunciar as coisas que são denunciadas. Eu não vejo que a mídia diz:
> >>>> ¿Eu tenho que dizer essas coisas feias que estão acontecendo com
> >>>> tristeza e lamentando, porque era melhor que este Congresso fosse
> >>>> feito apenas de santos¿. Eu não vejo. A sensação que tenho é que há
> >>>> uma certa alegria em descobrir mais um crime, mais um pecado, mais um
> >>>> comportamento errado, e isso é característica dos sádicos. Nós somos
> >>>> os masoquistas. Nós estamos dando as armas para eles. A mídia não tem
> >>>> mentido, o que a mídia tem feito é esquecido o resto da verdade que
> >>>> acontece nesta Casa que defende a democracia. Vê-se que cada um de nós
> >>>> está fazendo a sua parte, Senador Mão Santa, para um desenlace
> >>>> negativo, trágico, mas a gente está fazendo cada um a sua parte, como
> >>>> os personagens das tragédias gregas ou das tragédias de Shakespeare: o
> >>>> autor age como se ele não quisesse que o final fosse aquela situação.
> >>>> Quer dizer, ele não deixa, não interrompe no meio, não muda o rumo
> >>>> traçado pelo dramaturgo. Nós estamos como se fôssemos os atores de uma
> >>>> grande peça inventada por alguém neste País ou neste mundo que é o
> >>>> destino do Brasil.
> >>>> Vou mostrar que há mais indicações disso, são as indicações mais
> antigas.
> >>>> Anteontem não ouvi ninguém comentar, mas nós comemoramos 509 anos da
> >>>> chegada dos europeus aqui, em terras brasileiras. E esses 509 anos
> >>>> parecem ser uma imensa peça trágica teatral, que se limitou no começo
> >>>> ¿ e não mudou muito ¿ a matar e a escravizar os índios e a saquear a
> >>>> terra, porque foi isso o que aconteceu no início da colonização:
> >>>> matamos. E veja que eu continuo colocando no plural: incluindo-me como
> >>>> parte desses portugueses, descendentes todos nós que somos deles,
> >>>> direta ou indiretamente. Nós nos dedicamos a arrancar pau-brasil e a
> >>>> matar índios; às vezes, matando-os fisicamente e, às vezes, matando-os
> >>>> pela conversão a uma religião que entrava forçosamente na alma deles,
> >>>> porque a religião deles era outra. Também é uma forma de canibalismo
> >>>> fazer certas conversões. Canibalismo não é só comer carne, como os
> >>>> índios comeram a de um bispo; canibalismo também tem na alma, quando
> >>>> um bispo converte, de uma maneira forçada, um grupo de outra religião.
> >>>> E de lá para cá? De lá para cá, nós concentramos nossa história,
> >>>> durante 480 anos quase, a explorar, a matar, a saquear ¿ e não só os
> >>>> índios ¿ os negros africanos. Estava na cara, como se diz, que não
> >>>> iria dar certo uma economia com base na escravidão. Não dá certo
> >>>> eticamente, não dá certo moralmente, não dá certo nem economicamente
> >>>> manter todos aqueles milhões de escravos fora da economia, apenas como
> >>>> se fossem máquinas, sem consumir. O mercado é inaproveitado.
> >>>> Um mercado inaproveitado. Não podia dar certo e não deu certo. Além
> >>>> disso, fizemos o mesmo, só que substituindo o pau-brasil, que a gente
> >>>> mandava para fora, pela cana, pelo algodão, pelo ouro, pelo café, mas
> >>>> uma economia baseada na exportação de bens primários, quando os outros
> >>>> países começavam a industrialização. Tinha que dar errado. Mas nós do
> >>>> passado brasileiros, nós dirigentes no passado brasileiros agimos como
> >>>> se fôssemos parte de uma tragédia predefinida, escrita por um
> >>>> dramaturgo como se nós não tivéssemos o poder de mudar o destino dos
> >>>> personagens. Porque é isso que caracteriza os atores. Eles não têm o
> >>>> poder de mudar o destino dos personagens, eles sofrem com aquele
> >>>> destino que vai acontecer, mas eles dizem todas palavras, eles colocam
> >>>> toda a poesia que um dramaturgo escreveu.
> >>>> Essa é a sensação que tenho hoje como político. Que eu estou dizendo
> >>>> as palavras que foram traçadas para serem ditas, fazendo aquilo que
> >>>> fomos traçados para fazer, como se não tivéssemos o poder de mudar a
> >>>> história porque a história é uma peça de teatro. Essa é a sensação que
> >>>> tenho. E chegamos hoje aonde nessa peça? Chegamos hoje a um País que
> >>>> tem 14 milhões de analfabetos adultos. Chegamos a uma tragédia. Quem
> >>>> não percebe? Chegamos a um País que está em guerra civil e a gente
> >>>> parece que não percebe. Chegamos a um País onde apenas um terço das
> >>>> crianças terminam o segundo grau e sem qualidade suficiente para
> >>>> enfrentar o mundo de hoje, como o próprio Senador Paim falou mais cedo
> >>>> ao insistir na criação de um fundo para a escola do ensino técnico.
> >>>> Chegamos a um País em que, 500 anos depois, comemoramos anteontem,
> >>>> continua-se exportando basicamente ferro e soja, agricultura e pedras,
> >>>> como fizemos no passado. E aí alguns dizem: mas já exportamos
> >>>> automóveis e aviões. Automóveis e aviões que são importados,
> >>>> especialmente os automóveis, sem nenhuma contribuição, quase,
> >>>> científica e tecnológica brasileira. E aviões que têm, sim, uma
> >>>> pequena contribuição. Tem, não há dúvida, graças a uma escola chamada
> >>>> Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Mas, mesmo assim, nos nossos
> >>>> aviões, dentro deles, há um alto conteúdo de saber, inteligência e
> >>>> conhecimento importados, não inventados aqui dentro.
> >>>> Continuamos um País cuja tragédia está em não sermos um criador de
> >>>> conhecimento, não sermos um criador de inteligência. Não temos um
> >>>> único Prêmio Nobel neste País e não há nenhum de nós que esteja por
> >>>> aí, no mundo científico, cultural, que dê a impressão que vá ganhar o
> >>>> Nobel nos próximos 20 ou 30 anos. Pode até ser, de repente, mas,
> >>>> aparentemente, o Brasil não vai ganhar nenhum Prêmio Nobel nos
> >>>> próximos 20 ou 30 anos, porque, em geral, sabemos, décadas antes,
> >>>> quais são aqueles que poderão ganhar um Nobel como grande
> >>>> reconhecimento mundial do seu saber. Não temos hoje. Temos cientistas,
> >>>> temos filósofos, temos escritores, mas, aparentemente, nenhum que nas
> >>>> próximas décadas possa-se dizer: este é o nome que vai receber o
> >>>> coroamento do conhecimento mundial. Podemos até ter, de repente, algum
> >>>> Prêmio Nobel da Paz, porque a paz, em geral, tem por causa a tragédia.
> >>>> Os Prêmios Nobel da Paz acontecem por causa das guerras, por causa da
> >>>> miséria, por causa da destruição ecológica. Não por causa do saber,
> >>>> não por causa da inteligência, não por causa da ciência e da
> tecnologia.
> >>>> Estamos vivendo uma grande tragédia nesse imenso palco de 8,5 milhões
> >>>> de Km², com quase 200 milhões de atores, porque eu falei primeiro
> >>>> daqueles que são os responsáveis: nós, Parlamentares, Poder Executivo
> >>>> e Poder Judiciário. Vamos analisar também. Todo o Poder Judiciário,
> >>>> todo o Poder Legislativo e todo o Poder Executivo saem do povo,
> >>>> especialmente o Executivo e o Legislativo, que são eleitos pelo povo.
> >>>> Então, o povo faz parte também dessa imensa tragédia. E esse povo já
> >>>> demonstrou, mais até do que nós, que, quando é preciso, ele consegue
> >>>> mudar o rumo da história. Eles fizeram isso em 1945, quando foram para
> >>>> a rua a fim de trazer de volta a democracia. Eles fizeram isso quando
> >>>> foram para a rua para criar a Petrobras. Eles foram para a rua pelas
> >>>> eleições diretas. Não foram para a rua, mas desligaram o interruptor
> >>>> naquela grande tragédia do apagão elétrico que nós vivemos. O povo
> >>>> colaborou. O povo até que, de vez em quando, dá uma virada na História
> >>>> deste País, muda a tragédia que foi definida por cima, como se
> >>>> fôssemos impotentes, como se a História não fosse a História, como se
> >>>> a História fosse uma peça de teatro escrita previamente e dando a cada
> >>>> um de nós a responsabilidade de cumprir o nosso papel, sem poder, sem
> >>>> imaginação, apenas com a capacidade de representar aquilo que outros
> >>>> querem dizer pelas nossas bocas.
> >>>> Fizemos 509 anos dois dias atrás. E fizemos em um processo que não tem
> >>>> essas diferenças todas, quando vemos a desigualdade, quando vemos as
> >>>> características da nossa sociedade. Claro que não é mais todo negro
> >>>> escravo, mas a maioria deles fora de uma escola de qualidade e poucos
> >>>> na universidade. Não houve grandes saltos. Claro que a escola hoje não
> >>>> é mais apenas para os filhos dos ricos; existem escolas para os filhos
> >>>> dos pobres, mas que não podem ser chamadas, com clareza, de escola,
> >>>> porque muitas delas não passam de restaurantes mirins para distribuir
> >>>> a merenda escolar e não para que se estude nelas.
> >>>> É tão claro que não mudamos; que o projeto que está circulando neste
> >>>> Congresso para que os filhos dos Parlamentares, Deputados, Vereadores,
> >>>> Senadores e Prefeitos devam estudar em escola pública é visto como se
> >>>> fosse uma demagogia, como se fosse uma impossibilidade.
> >>>> Da mesma maneira que neste País da tragédia, no sentido, não da
> >>>> maldade, da ruindade, mas no sentido da impotência em mudar o seu
> >>>> rumo, neste mesmo País, não faz muito, falar em abolir a escravidão
> >>>> era considerado demagogia, porque mesmo aqueles, Senador Paim, que
> >>>> defendiam os escravos, eles não defendiam a abolição. Mesmo aqueles
> >>>> que defendiam os escravos, eles defendiam menos chicotadas, eles
> >>>> defendiam que os escravos não pudessem ser assassinados, inclusive,
> >>>> chegaram a defender que a família não poderia ser vendida
> >>>> separadamente, tinha que ser vendida em bloco. Chegaram a defender
> >>>> que, passados 60 anos, eles ficariam livres, porque já não podiam
> >>>> trabalhar. Chegaram a defender que o filho da escrava não seria
> >>>> escravo, mas não defendiam a Abolição da Escravatura, porque isso era
> >>>> considerado impossível, porque isso era considerado uma
> >>>> impossibilidade, porque isso era considerado ferir o direito do dono
> >>>> do escravo, que tinha gasto um dinheirão para comprar os seus escravos
> >>>> e, de repente, ao abolir a escravidão, isso faria com que perdesse
> >>>> todo o seu capital. Era considerado demagogia, era considerado
> >>>> impossibilidade, era considerado falta de liberdade dar liberdade aos
> >>>> escravos. Dar liberdade aos escravos era considerado tirar liberdade
> >>>> dos donos dos escravos. Essa era uma tragédia, mas todos colaboravam
> >>>> para isso, até que de vez em quando surgia uma voz que mudava, como
> >>>> surgiu Joaquim Nabuco, que passou a defender a abolição e foi visto
> >>>> como um demagogo durante anos e anos, até que terminou acontecendo.
> >>>> Quase que por inanição a escravidão se acabou, porque já não se
> >>>> justificava ter que comprar escravos, já que havia muita gente
> >>>> querendo se vender por um salário de nada. Para que gastar dinheiro
> >>>> trazendo escravos de longe se eles moravam por perto? Como hoje, para
> >>>> que buscar um trabalhador na África, escravo, se nas favelas eles
> >>>> estão dispostos a trabalhar por qualquer valor? Nós passamos a ideia,
> >>>> o nosso Brasil, de que não somos um País com uma história sobre a qual
> >>>> temos o poder, sobre a qual podemos mudar de rumo. Nós passamos a
> >>>> ideia de que somos 200 milhões de atores de uma tragédia previamente
> >>>> escrita e que nosso papel é cumprir o que essa tragédia já tem
> >>>> predeterminada por um dramaturgo qualquer que não sabemos quem é.
> >>>> Está na hora de pensarmos em mudar isso. Está na hora de assumirmos
> >>>> que somos cidadãos, não atores. Nós somos cidadãos de uma história,
> >>>> nem atores de uma peça teatral, e que nós queremos que essa história
> >>>> traga um País melhor e não um final trágico, como aqueles que estão
> >>>> escritos previamente nas peças de teatro.
> >>>> Para isso, vamos precisar mudar algumas coisas. Mas, antes de tentar
> >>>> sugerir essas mudanças, Senador Paim, passo a palavra ao Senador Mão
> >>>> Santa, que pediu um aparte.
> >>>> O Sr. Mão Santa (PMDB ¿ PI) ¿ Senador Cristovam, V. Exª faz um feliz
> >>>> discurso, sempre com muita cultura. Às vezes, é como diz o Antoine
> >>>> Exupéry: a linguagem é fonte de desentendimento. Mas V. Exª, hoje ¿ a
> >>>> felicidade foi tão grande ¿, vai buscar a tragédia grega e citou
> >>>> Shakespeare, quando ele disse no Rei Lear: ¿Há algo de podre no Reino
> >>>> da Dinamarca¿. E me impressionou mais quando ele foi adiante e disse:
> >>>> ¿É melhor ser um mendigo em Nápoles do que Rei da Dinamarca¿. Paim, eu
> >>>> fiquei tão perplexo que, na Itália, eu fui conhecer essa Nápoles. E,
> >>>> realmente, a natureza foi Deus que fez, mas a cultura é o homem. E o
> >>>> que é que tem em Nápoles? Nápoles é aquela elite do Renascimento:
> >>>> Maquiavel, Dante Alighieri, Leonardo da Vinci. Todos moraram e
> >>>> nasceram ali; conviveram, viram a cultura, e mudaram o mundo. De lá
> >>>> veio o Renascimento. Mas V. Exª adverte com tanta firmeza o que nós
> >>>> vivemos ¿ essa tragédia ¿ e culturalmente, porque a natureza é Deus, a
> >>>> cultura somos nós. V. Exª fala em Prêmio Nobel da Paz. Quer dizer, a
> >>>> gente fica perplexo, porque não tem Nobel de nada no Brasil. Bem aí no
> >>>> Chile têm dois escritores: Uma mulher, Gabriela Mistral, cujos
> >>>> escritos são mais de cunho religioso, e o Pablo Neruda, que foi
> >>>> Senador da República. Então, nós temos muito a dever. Mas é aqui,
> >>>> aqui, aqui. Essas instituições que têm que vir. O Pedro II dava o
> >>>> ensinamento. Ele deixava a coroa e o cetro e ia assistir às sessões do
> >>>> Senado. Então, o mundo é outro. Vamos ver se os nossos, os outros
> >>>> Poderes, o Executivo de Sua Excelência o nosso Presidente Luiz Inácio,
> >>>> tomam conhecimento do seu discurso. E o outro Poder, o Judiciário,
> >>>> também. É com a grandeza da democracia que nós estamos a sonhar.
> >>>> Martin Luther King tinha um sonho... Que sejam equipotentes, um
> >>>> controlando o outro, um iluminando o outro. E, neste momento, você
> >>>> ilumina o Poder Executivo e o Poder Judiciário.
> >>>> O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF) ¿ Muito obrigado, Senador Mão
> Santa.
> >>>> E não deixei de falar que a mídia precisa descobrir o outro lado dessa
> >>>> tragédia, que é o lado do poder da gente de mudar as coisas, que é o
> >>>> lado do que está sendo feito de bom no dia a dia.
> >>>> Nós vivemos um momento em que, aparentemente, ninguém quer se sentir
> >>>> capaz de reorientar os destinos da Nação.
> >>>> E eu quero até concluir, Senador Paim, lembrando que me preocupa até
> >>>> mesmo o debate que virá no próximo ano para escolher o próximo
> >>>> Presidente ou Presidenta da República. A sensação que eu tenho é de
> >>>> que vai ser o mais chato de todos os debates da História do Brasil.
> >>>> Vai ser o mais monótono de todos os debates da História do Brasil,
> >>>> porque vão se comportar não como se fossem líderes para reorientar a
> >>>> História do Brasil. Eles vão se concentrar como se fossem os diretores
> >>>> da peça da tragédia, como se já tivesse tudo prescrito, apenas eles
> >>>> vão fazer mais projetos de infraestrutura, apenas eles viriam ou irão
> >>>> fazer um pouco mais ou menos, mas para cumprir o mesmo destino,
> >>>> destino que está prescrito numa frase que se diz no Brasil, como se
> >>>> fosse um orgulho: o País do futuro.
> >>>>
> >>>> Que País do futuro? A gente quer um País que construa um futuro, um
> >>>> País cujo presente está a construção do futuro; e não um País cujo
> >>>> futuro virá automaticamente, como nas peças gregas, como nas peças
> >>>> teatrais das tragédias a que nós assistimos.
> >>>>
> >>>> O Hamlet, que o Senador citou, não queria aparentemente, mas ele foi
> >>>> programado pelo dramaturgo para vingar a morte do pai, e ele fez tudo
> >>>> o que foi preciso para cumprir isso.
> >>>> Em cada peça de teatro que a gente vê, os personagens fazem tudo que o
> >>>> dramaturgo escreveu. Agora, num país, a gente não pode fazer aquilo
> >>>> que foi escrito, porque não foi escrito. Está para ser escrito. Por
> >>>> isso, não é peça de teatro, é História do Brasil.
> >>>> Nós precisamos dar um grito de independência e deixarmos de ser
> >>>> personagens de uma tragédia e virarmos personagens de uma história,
> >>>> história com ¿h¿, história feita, história construída.
> >>>> Mas, para isso, é preciso despertar. É preciso despertar cada um da
> >>>> gente do poder que a gente não sabe que tem, do poder que a gente acha
> >>>> que não tem, e termina se divertindo. Os Parlamentares nos divertimos
> >>>> fazendo essa encenação teatral; o Poder Executivo se diverte mostrando
> >>>> uma publicidade de uma encenação de realizações; o Poder Judiciário
> >>>> faz uma encenação de que há justiça. E a mídia divulga pura encenação,
> >>>> não penetra, não analisa, e a gente fica, cada um de nós, convivendo,
> >>>> sofrendo, nessa relação que eu disse sadomasoquista, mas sem querer
> >>>> dar o grito de que nós somos os condutores da história do País. Nós
> >>>> não somos personagens impotentes. Nós não estamos aqui apenas para
> >>>> dizer o que o dramaturgo escreveu. Nós estamos aqui para dizer aquilo
> >>>> que o País precisa fazer, é nós sabemos o que é. Nós sabemos que é
> >>>> preciso pormos juntos Executivo, Judiciário e a mídia. Bastaria dizer
> >>>> que a gente estaria cumprindo o nosso papel, para, mais uma vez, fazer
> >>>> aquilo que, em poucos momentos, nós fizemos, como em 1822, quando da
> >>>> luta de um país colônia, que queria ser independente, e saiu
> >>>> independente. Em 1889, quando um país monárquico e um republicano, e
> >>>> saiu o republicano. Como em 1930, um país agrícola exportador, e
> >>>> surgiu um país industrial. Outra vez nós precisamos fazer uma inflexão
> >>>> na história, dobrar a história, conduzir a história e transformar este
> >>>> País, de uma sociedade brutalmente desigual, como foi durante a
> >>>> escravidão, brutalmente depredador da natureza, como fomos toda a
> >>>> nossa história, preferindo o trabalho manual ao trabalho da
> >>>> inteligência, preferindo produzir bens materiais a produzir bens
> >>>> vindos da ciência e da tecnologia...
> >>>>
> >>>> Nós precisamos pegar esse país velho da indústria puramente mecânica,
> >>>> depredadora e concentradora e daí fazer surgir um novo país, um novo
> >>>> país da indústria do conhecimento, respeitando o meio ambiente,
> >>>> distribuindo os produtos que nós temos aqui, tudo isso
> >>>> democraticamente e com a participação de todos, da mídia denunciando
> >>>> tudo de errado que existir e propondo um debate sobre tudo de novo que
> >>>> ainda não existe, do povo votando corretamente e indo para a rua
> >>>> quando for preciso para exigir os seus direitos e a construção de um
> >>>> país melhor.
> >>>>
> >>>> E nós Parlamentares, não dando margem a tantas notícias ruins, pois
> >>>> nos transformamos em verdadeira fábrica de notícias negativas sobre o
> >>>> Congresso. E, ao mesmo tempo, mais do que isto: nos transformando em
> >>>> condutores deste País, não atores de uma peça predeterminada, mas
> >>>> autores de uma história ainda a ser construída.
> >>>>
> >>>> Eu vim aqui querendo comemorar os 509 anos em que aqui chegaram os
> >>>> portugueses e eu gostaria de poder dizer que, junto com os índios, e,
> >>>> depois, junto com os africanos, construíram este País. Mas não foi
> >>>> assim. Chegaram aqui os portugueses e, contra os índios e contra os
> >>>> africanos e destruindo a natureza, fizeram este País que a gente tem
> >>>> hoje, que parece o resultado de uma grande tragédia.
> >>>> Está em tempo, porque o País é eterno, sempre haverá tempo, mas o
> >>>> triste é que a gente deixe passar pelas mãos da gente a chance de
> >>>> ainda em nossa vida nos transformarmos, de atores, em autores,
> >>>> transformarmos uma peça teatral em uma história nacional.
> >>>> Ainda é tempo de este Congresso assumir esse papel.
> >>>> Ainda é tempo de nós, que somos a Casa do povo, exigirmos isso do
> >>>> Executivo e do Judiciário. E ainda é tempo de que o nosso
> >>>> comportamento termine por inspirar a mídia, para que ela continue
> >>>> sendo a denunciadora, mas também a incendiadora, a incendiadora de um
> >>>> novo país, a incendiadora das ideias que iluminarão o novo país.
> >>>> Hoje, ela não está sendo isso. Hoje, ela está sendo, corretamente ¿ e
> >>>> não temos de reclamar de nada do que ela escreve ¿, apenas a
> >>>> denunciadora, que é um papel importante da mídia. Ela tem de ser a
> >>>> incendiadora no sentido de iluminar, por meio dos debates que ela
> >>>> transmite, das ideias que ela não está descobrindo e que existem; ela
> >>>> tem que iluminar um Brasil diferente, um Brasil em que os atores se
> >>>> transformem em autores, em que as tragédias se transformem na glória,
> >>>> um país onde a peça se transforme em história.
> >>>> É isso, Sr. Presidente Paim, que eu gostaria de dizer nesta manhã de
> >>>> sexta-feira, sem muitas ilusões de que vou deixar de ser um ator para
> >>>> ser um autor. Não tenho essas ilusões mais, talvez pela idade, mas
> >>>> tenho a grande esperança de, quem sabe, alguém com menos de 15 anos
> >>>> que tenha hoje escutado o que eu falei possa despertar e dizer ¿eu não
> >>>> quero ser apenas ator da grande peça Brasil; eu quero ser o autor da
> >>>> grande história que o Brasil poderá vir a ter, mas não terá
> >>>> automaticamente como muitos pensam¿.
> >>>>
> >>>> Autor   Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista /DF)
> >>>> Data    24/04/2009      Casa    Senado Federal  Tipo    Discurso
> >>>>
> http://www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=378863
> >>>>
> >>>>
> >>>>
> >>>> --
> >>>> Talvez um rio manso surja esta manhã.
> >>>> Talvez triunfe a verdade.
> >>>> Talvez não seja demasiado tarde
> >>>> para sair a semear
> >>>> canções de outros tempos.
> >>>>
> >>>>                            Augusto Blanca
> >>>>
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> >>> Hélio Leite Teixeira
> >>> Assembléia Legislativa de Alagoas
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