[gial] Um pouco de reflexão

Hélio Leite Teixeira heliolteixeira em gmail.com
Terça Abril 28 15:11:27 BRT 2009


Inacio,

Não sou muito de elogiar políticos ou ocupantes de cargos públicos...
Mas o cidadão Cristóvam Buarque é um caso a parte.

Um dos homens públicos mais admiráveis do nosso país. Além da sua luta
contra a ditadura militar ele é um dos poucos políticos que dedica
praticamente todo o seu mandato para defender a questão mais
importante para o desenvolvimento do país, a Educação. E ainda é
criticado por isso, dá pra acreditar????

Para quem se interessa pelo assunto educação e ainda não conhece as
posições e idéias defendidas por ele, aqui vai uma dica:

http://comunicacaochapabranca.com.br/?p=5183

Inacio, parabéns por sua brilhante intervenção!!!

Grande abraço,

Hélio Teixeira
ALE/AL

2009/4/28  <inaciojunior em usp.br>:
> Car em s,
>
> Semana passada cheguei em casa tarde da noite e cansado dei uma
> cochilada no sofá. Por acaso acabei deixando a televisão ligada na TV
> senado, quando eu acordei ouvindo o Cristóvam Buarque fazendo um dos
> pronunciamentos mais belos que já vi e que não via desde os tempos da
> Ditadura Militar. Compartilho com vocês abaixo.
>
> Talvez valha uma reflexão para o legislativo local.
>
> Inté
>
> Inácio
>
>
> O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem
> revisão do orador.) ¿ Sr. Presidente e Senador Mão Santa, demorei
> muito, na minha história de leitor, para gostar de ler peças de
> teatro. Mas chego ao ponto ¿ talvez seja a idade que facilite ¿ que
> terminei adquirindo esse gosto. Estou vendo, Senador Paim, como estão
> parecidas as peças gregas, as peças trágicas de Shakespeare com os
> jornais brasileiros de hoje. A sensação que tenho, ao ler os jornais,
> é que estou lendo as tragédias especialmente gregas. Vou explicar por
> quê.
> Quando a gente assiste a uma peça de teatro, dessas mais trágicas, o
> bom ator passa para nós a idéia de que está cumprindo um papel que
> preferiria que não acontecesse no final. Ele passa a sensação ¿ cada
> um deles ¿ de que seria melhor que, no final, não houvesse a morte, as
> diversas formas como a tragédia se manifesta. Mas, apesar de ele
> passar a idéia de que não deseja aquele final, ele cumpre cada passo
> definido pelo dramaturgo para que o final seja trágico.
> Estamos assim. Estamos hoje funcionando como se não quiséssemos que
> houvesse um final trágico, mas fazendo tudo aquilo que é preciso para
> que a tragédia aconteça. Vamos analisar quais são os setores.
> Comecemos por nós próprios.
> Nós sabemos que hoje, diante de nós, por cima de nós, está uma
> quantidade de holofotes nos observando, uma transparência criada pela
> força da democracia que faz com que cada pequeno ou grande pecado
> cometido seja visto com a dimensão da gravidade que a mídia transmite.
> Apesar disso, a gente continua fazendo gestos que nos levam a uma
> imagem negativa lá fora. Nós estamos fazendo isso. Às vezes, coisas
> simples, às vezes, coisas graves. Por exemplo, a ausência nossa... E
> eu quero deixar claro que quando eu digo nossa, eu estou me incluindo.
> Não há aqui ninguém melhor do que o outro. Nós somos aqui um
> Parlamento. Nossa ausência. A gente está vindo dois, três dias por
> semana aqui, salvo um ou outro. Mas mesmo com esse um ou outro que vem
> aqui, a gente não tem chance de votar, de debater, de analisar, de
> enfrentar. A gente faz um discurso, e cai no vazio, porque ninguém
> assiste e, os poucos que assistem, não respondem, não discutem, não
> confrontam, que é a finalidade de um parlamento.
> Nós estamos cometendo uma forma de comportamento que leva,
> necessariamente, à descrença. E a descrença com o Congresso é uma
> tragédia para a democracia.
> O próprio assunto, Senador Mão Santa, sobre o qual alguns já falaram
> hoje, das passagens para as famílias, eu quero dizer, em primeiro
> lugar, que nós, Senadores de Brasília, eu e os outros dois, a gente
> não deve receber passagem nenhuma para familiares. Nenhuma, nenhuma,
> nenhuma. Agora, os Parlamentares de outros Estados deviam ser
> obrigados a trazer suas famílias para viver em Brasília. Deviam
> receber, pelo menos, uma passagem por semestre para todos os seus
> familiares, da sua cidade para Brasília, como fazem as empresas quando
> transferem um executivo. E uma das falhas dessa tragédia que se
> anuncia é a mudança no comportamento nosso, dos Parlamentares, de um
> tempo passado em que as famílias vinham viver aqui e os Parlamentares
> ficavam o tempo todo aqui, com essa mania de hoje de vir e, toda
> semana, ir visitar a família lá fora, em sua casa.
> Isso está nos afastando, entre nós Parlamentares, está afastando os
> Parlamentares não apenas das suas famílias, mas da possibilidade de
> exercermos o papel de Parlamentares, que é parlamentar, que é se
> encontrar, que é conviver, que é debater.
> Nós parecemos hoje personagens de uma tragédia grega, fazendo aquilo
> que a gente não quer que leve a um desenlace trágico, mas fazendo
> mesmo assim, esperando que, no final, o público chore com aquilo que a
> gente representou. Nós não estamos trazendo aqui os grandes temas
> nacionais, não estamos debatendo a pauta do povo, salvo uma ou outra
> vez em que a gente fez, graças inclusive ao Senador Paim, as vigílias.
> Mas, cadê as outras? Fizemos a dos aposentados, mas cadê a vigília
> para discutir a situação das crianças? Cadê a vigília para discutir a
> situação da infraestrutura? Cadê a vigília para discutir o próprio
> Congresso, numa noite inteira, todo mundo debatendo? Além disso, vamos
> lembrar bem, as nossas vigílias tinham cinco, seis pessoas aqui
> dentro. Nós estamos nos comportando como figurantes de uma tragédia
> que a gente não quer que aconteça, mas a gente cumpre o papel para
> isso. Mas não venham dizer que somos apenas nós os congressistas.
> Vamos olhar o Poder Executivo. O Poder Executivo está-se comportando
> como se não desse atenção, como se quisesse evitar uma tragédia, mas
> faz tudo para que aconteça.
> As medidas provisórias que paralisam o Congresso. As medidas
> provisórias que substituem os projetos dos próprios congressistas.
> O excesso de publicidade do Governo para mostrar como se só o
> Executivo funcionasse neste País e nós fôssemos um apêndice secundário
> do processo democrático.
> O Presidente da República, provavelmente sem querer, está sendo hoje
> um figurante de uma tragédia que se anuncia, que a gente caminha para
> acontecer, que é o descrédito nas instituições.
> Mas não só o Poder Executivo, o Judiciário também. E eu não falo
> apenas do confronto entre dois juízes diante das televisões, ou pelo
> menos diante da TV Justiça. Não, eu falo mais grave que isso. Falo,
> por exemplo, que nós estamos, hoje, naquele choque entre juízes,
> analisando se foi ou não falta de decoro. E não analisando se tem ou
> não verdade por trás do que eles disseram.
> Quando a gente fica na aparência, ao invés de ficar na substância, é
> porque a gente não está querendo enfrentar o problema. E se a gente
> não quer enfrentar o problema, a gente está-se comportando, cada um de
> nós, como figurantes de uma grande peça chamada História do Brasil,
> que pode terminar numa tragédia que a gente não quer que aconteça, mas
> que a gente faz tudo para que ela aconteça como a gente não quer.
> E quando a Justiça se intromete no Poder Legislativo como tem feito
> sistematicamente? E quando a Justiça manda tirar as algemas dos ricos
> e fecha os olhas às algemas nos braços dos pobres? Como se algema não
> pudesse sujar os punhos de seda dos ricos, mas pudesse ser colocada
> nos punhos dos pobres que vão sem camisa para a frente da televisão.
> A Justiça, quando faz isso, está colaborando para uma tragédia, a
> tragédia na descrença das instituições democráticas. Não estão
> querendo que aconteça o trágico, mas estão agindo para que ele, no
> final, aconteça.
> Nós vimos três setores que estão fazendo isso.
> Mas a mídia também. A mídia. Não por dizer o que diz, mas por
> limitar-se quase que apenas ao dizer o que diz. A mídia esqueceu os
> debates que a gente tem que fazer neste País, entre um país velho que
> tem que morrer e um novo que tem que surgir, o velho da destruição
> ecológica, o velho da concentração de renda, para surgir o novo, do
> desenvolvimento equilibrado social e ecologicamente com democracia. A
> gente não vê esse debate na mídia. Será que ninguém está falando isso?
> Ou é a mídia que se acostumou a uma única pauta, necessária, mas
> insuficiente, que é a pauta do escândalo.
> Nós temos hoje uma relação que tem tudo a ver com o teatro, é uma
> relação sadomasoquista entre políticos e jornalistas. Hoje é uma
> relação sadomasoquista. E nós somos os masoquistas. E eles são os
> sádicos. Nós somos os masoquistas porque fazemos coisas que levam a
> mídia, corretamente, a denunciar, e, depois, nós sofremos com a
> denúncia que eles fazem. Mas o pior é que eles sentem prazer em
> denunciar as coisas que são denunciadas. Eu não vejo que a mídia diz:
> ¿Eu tenho que dizer essas coisas feias que estão acontecendo com
> tristeza e lamentando, porque era melhor que este Congresso fosse
> feito apenas de santos¿. Eu não vejo. A sensação que tenho é que há
> uma certa alegria em descobrir mais um crime, mais um pecado, mais um
> comportamento errado, e isso é característica dos sádicos. Nós somos
> os masoquistas. Nós estamos dando as armas para eles. A mídia não tem
> mentido, o que a mídia tem feito é esquecido o resto da verdade que
> acontece nesta Casa que defende a democracia. Vê-se que cada um de nós
> está fazendo a sua parte, Senador Mão Santa, para um desenlace
> negativo, trágico, mas a gente está fazendo cada um a sua parte, como
> os personagens das tragédias gregas ou das tragédias de Shakespeare: o
> autor age como se ele não quisesse que o final fosse aquela situação.
> Quer dizer, ele não deixa, não interrompe no meio, não muda o rumo
> traçado pelo dramaturgo. Nós estamos como se fôssemos os atores de uma
> grande peça inventada por alguém neste País ou neste mundo que é o
> destino do Brasil.
> Vou mostrar que há mais indicações disso, são as indicações mais antigas.
> Anteontem não ouvi ninguém comentar, mas nós comemoramos 509 anos da
> chegada dos europeus aqui, em terras brasileiras. E esses 509 anos
> parecem ser uma imensa peça trágica teatral, que se limitou no começo
> ¿ e não mudou muito ¿ a matar e a escravizar os índios e a saquear a
> terra, porque foi isso o que aconteceu no início da colonização:
> matamos. E veja que eu continuo colocando no plural: incluindo-me como
> parte desses portugueses, descendentes todos nós que somos deles,
> direta ou indiretamente. Nós nos dedicamos a arrancar pau-brasil e a
> matar índios; às vezes, matando-os fisicamente e, às vezes, matando-os
> pela conversão a uma religião que entrava forçosamente na alma deles,
> porque a religião deles era outra. Também é uma forma de canibalismo
> fazer certas conversões. Canibalismo não é só comer carne, como os
> índios comeram a de um bispo; canibalismo também tem na alma, quando
> um bispo converte, de uma maneira forçada, um grupo de outra religião.
> E de lá para cá? De lá para cá, nós concentramos nossa história,
> durante 480 anos quase, a explorar, a matar, a saquear ¿ e não só os
> índios ¿ os negros africanos. Estava na cara, como se diz, que não
> iria dar certo uma economia com base na escravidão. Não dá certo
> eticamente, não dá certo moralmente, não dá certo nem economicamente
> manter todos aqueles milhões de escravos fora da economia, apenas como
> se fossem máquinas, sem consumir. O mercado é inaproveitado.
> Um mercado inaproveitado. Não podia dar certo e não deu certo. Além
> disso, fizemos o mesmo, só que substituindo o pau-brasil, que a gente
> mandava para fora, pela cana, pelo algodão, pelo ouro, pelo café, mas
> uma economia baseada na exportação de bens primários, quando os outros
> países começavam a industrialização. Tinha que dar errado. Mas nós do
> passado brasileiros, nós dirigentes no passado brasileiros agimos como
> se fôssemos parte de uma tragédia predefinida, escrita por um
> dramaturgo como se nós não tivéssemos o poder de mudar o destino dos
> personagens. Porque é isso que caracteriza os atores. Eles não têm o
> poder de mudar o destino dos personagens, eles sofrem com aquele
> destino que vai acontecer, mas eles dizem todas palavras, eles colocam
> toda a poesia que um dramaturgo escreveu.
> Essa é a sensação que tenho hoje como político. Que eu estou dizendo
> as palavras que foram traçadas para serem ditas, fazendo aquilo que
> fomos traçados para fazer, como se não tivéssemos o poder de mudar a
> história porque a história é uma peça de teatro. Essa é a sensação que
> tenho. E chegamos hoje aonde nessa peça? Chegamos hoje a um País que
> tem 14 milhões de analfabetos adultos. Chegamos a uma tragédia. Quem
> não percebe? Chegamos a um País que está em guerra civil e a gente
> parece que não percebe. Chegamos a um País onde apenas um terço das
> crianças terminam o segundo grau e sem qualidade suficiente para
> enfrentar o mundo de hoje, como o próprio Senador Paim falou mais cedo
> ao insistir na criação de um fundo para a escola do ensino técnico.
> Chegamos a um País em que, 500 anos depois, comemoramos anteontem,
> continua-se exportando basicamente ferro e soja, agricultura e pedras,
> como fizemos no passado. E aí alguns dizem: mas já exportamos
> automóveis e aviões. Automóveis e aviões que são importados,
> especialmente os automóveis, sem nenhuma contribuição, quase,
> científica e tecnológica brasileira. E aviões que têm, sim, uma
> pequena contribuição. Tem, não há dúvida, graças a uma escola chamada
> Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Mas, mesmo assim, nos nossos
> aviões, dentro deles, há um alto conteúdo de saber, inteligência e
> conhecimento importados, não inventados aqui dentro.
> Continuamos um País cuja tragédia está em não sermos um criador de
> conhecimento, não sermos um criador de inteligência. Não temos um
> único Prêmio Nobel neste País e não há nenhum de nós que esteja por
> aí, no mundo científico, cultural, que dê a impressão que vá ganhar o
> Nobel nos próximos 20 ou 30 anos. Pode até ser, de repente, mas,
> aparentemente, o Brasil não vai ganhar nenhum Prêmio Nobel nos
> próximos 20 ou 30 anos, porque, em geral, sabemos, décadas antes,
> quais são aqueles que poderão ganhar um Nobel como grande
> reconhecimento mundial do seu saber. Não temos hoje. Temos cientistas,
> temos filósofos, temos escritores, mas, aparentemente, nenhum que nas
> próximas décadas possa-se dizer: este é o nome que vai receber o
> coroamento do conhecimento mundial. Podemos até ter, de repente, algum
> Prêmio Nobel da Paz, porque a paz, em geral, tem por causa a tragédia.
> Os Prêmios Nobel da Paz acontecem por causa das guerras, por causa da
> miséria, por causa da destruição ecológica. Não por causa do saber,
> não por causa da inteligência, não por causa da ciência e da tecnologia.
> Estamos vivendo uma grande tragédia nesse imenso palco de 8,5 milhões
> de Km², com quase 200 milhões de atores, porque eu falei primeiro
> daqueles que são os responsáveis: nós, Parlamentares, Poder Executivo
> e Poder Judiciário. Vamos analisar também. Todo o Poder Judiciário,
> todo o Poder Legislativo e todo o Poder Executivo saem do povo,
> especialmente o Executivo e o Legislativo, que são eleitos pelo povo.
> Então, o povo faz parte também dessa imensa tragédia. E esse povo já
> demonstrou, mais até do que nós, que, quando é preciso, ele consegue
> mudar o rumo da história. Eles fizeram isso em 1945, quando foram para
> a rua a fim de trazer de volta a democracia. Eles fizeram isso quando
> foram para a rua para criar a Petrobras. Eles foram para a rua pelas
> eleições diretas. Não foram para a rua, mas desligaram o interruptor
> naquela grande tragédia do apagão elétrico que nós vivemos. O povo
> colaborou. O povo até que, de vez em quando, dá uma virada na História
> deste País, muda a tragédia que foi definida por cima, como se
> fôssemos impotentes, como se a História não fosse a História, como se
> a História fosse uma peça de teatro escrita previamente e dando a cada
> um de nós a responsabilidade de cumprir o nosso papel, sem poder, sem
> imaginação, apenas com a capacidade de representar aquilo que outros
> querem dizer pelas nossas bocas.
> Fizemos 509 anos dois dias atrás. E fizemos em um processo que não tem
> essas diferenças todas, quando vemos a desigualdade, quando vemos as
> características da nossa sociedade. Claro que não é mais todo negro
> escravo, mas a maioria deles fora de uma escola de qualidade e poucos
> na universidade. Não houve grandes saltos. Claro que a escola hoje não
> é mais apenas para os filhos dos ricos; existem escolas para os filhos
> dos pobres, mas que não podem ser chamadas, com clareza, de escola,
> porque muitas delas não passam de restaurantes mirins para distribuir
> a merenda escolar e não para que se estude nelas.
> É tão claro que não mudamos; que o projeto que está circulando neste
> Congresso para que os filhos dos Parlamentares, Deputados, Vereadores,
> Senadores e Prefeitos devam estudar em escola pública é visto como se
> fosse uma demagogia, como se fosse uma impossibilidade.
> Da mesma maneira que neste País da tragédia, no sentido, não da
> maldade, da ruindade, mas no sentido da impotência em mudar o seu
> rumo, neste mesmo País, não faz muito, falar em abolir a escravidão
> era considerado demagogia, porque mesmo aqueles, Senador Paim, que
> defendiam os escravos, eles não defendiam a abolição. Mesmo aqueles
> que defendiam os escravos, eles defendiam menos chicotadas, eles
> defendiam que os escravos não pudessem ser assassinados, inclusive,
> chegaram a defender que a família não poderia ser vendida
> separadamente, tinha que ser vendida em bloco. Chegaram a defender
> que, passados 60 anos, eles ficariam livres, porque já não podiam
> trabalhar. Chegaram a defender que o filho da escrava não seria
> escravo, mas não defendiam a Abolição da Escravatura, porque isso era
> considerado impossível, porque isso era considerado uma
> impossibilidade, porque isso era considerado ferir o direito do dono
> do escravo, que tinha gasto um dinheirão para comprar os seus escravos
> e, de repente, ao abolir a escravidão, isso faria com que perdesse
> todo o seu capital. Era considerado demagogia, era considerado
> impossibilidade, era considerado falta de liberdade dar liberdade aos
> escravos. Dar liberdade aos escravos era considerado tirar liberdade
> dos donos dos escravos. Essa era uma tragédia, mas todos colaboravam
> para isso, até que de vez em quando surgia uma voz que mudava, como
> surgiu Joaquim Nabuco, que passou a defender a abolição e foi visto
> como um demagogo durante anos e anos, até que terminou acontecendo.
> Quase que por inanição a escravidão se acabou, porque já não se
> justificava ter que comprar escravos, já que havia muita gente
> querendo se vender por um salário de nada. Para que gastar dinheiro
> trazendo escravos de longe se eles moravam por perto? Como hoje, para
> que buscar um trabalhador na África, escravo, se nas favelas eles
> estão dispostos a trabalhar por qualquer valor? Nós passamos a ideia,
> o nosso Brasil, de que não somos um País com uma história sobre a qual
> temos o poder, sobre a qual podemos mudar de rumo. Nós passamos a
> ideia de que somos 200 milhões de atores de uma tragédia previamente
> escrita e que nosso papel é cumprir o que essa tragédia já tem
> predeterminada por um dramaturgo qualquer que não sabemos quem é.
> Está na hora de pensarmos em mudar isso. Está na hora de assumirmos
> que somos cidadãos, não atores. Nós somos cidadãos de uma história,
> nem atores de uma peça teatral, e que nós queremos que essa história
> traga um País melhor e não um final trágico, como aqueles que estão
> escritos previamente nas peças de teatro.
> Para isso, vamos precisar mudar algumas coisas. Mas, antes de tentar
> sugerir essas mudanças, Senador Paim, passo a palavra ao Senador Mão
> Santa, que pediu um aparte.
> O Sr. Mão Santa (PMDB ¿ PI) ¿ Senador Cristovam, V. Exª faz um feliz
> discurso, sempre com muita cultura. Às vezes, é como diz o Antoine
> Exupéry: a linguagem é fonte de desentendimento. Mas V. Exª, hoje ¿ a
> felicidade foi tão grande ¿, vai buscar a tragédia grega e citou
> Shakespeare, quando ele disse no Rei Lear: ¿Há algo de podre no Reino
> da Dinamarca¿. E me impressionou mais quando ele foi adiante e disse:
> ¿É melhor ser um mendigo em Nápoles do que Rei da Dinamarca¿. Paim, eu
> fiquei tão perplexo que, na Itália, eu fui conhecer essa Nápoles. E,
> realmente, a natureza foi Deus que fez, mas a cultura é o homem. E o
> que é que tem em Nápoles? Nápoles é aquela elite do Renascimento:
> Maquiavel, Dante Alighieri, Leonardo da Vinci. Todos moraram e
> nasceram ali; conviveram, viram a cultura, e mudaram o mundo. De lá
> veio o Renascimento. Mas V. Exª adverte com tanta firmeza o que nós
> vivemos ¿ essa tragédia ¿ e culturalmente, porque a natureza é Deus, a
> cultura somos nós. V. Exª fala em Prêmio Nobel da Paz. Quer dizer, a
> gente fica perplexo, porque não tem Nobel de nada no Brasil. Bem aí no
> Chile têm dois escritores: Uma mulher, Gabriela Mistral, cujos
> escritos são mais de cunho religioso, e o Pablo Neruda, que foi
> Senador da República. Então, nós temos muito a dever. Mas é aqui,
> aqui, aqui. Essas instituições que têm que vir. O Pedro II dava o
> ensinamento. Ele deixava a coroa e o cetro e ia assistir às sessões do
> Senado. Então, o mundo é outro. Vamos ver se os nossos, os outros
> Poderes, o Executivo de Sua Excelência o nosso Presidente Luiz Inácio,
> tomam conhecimento do seu discurso. E o outro Poder, o Judiciário,
> também. É com a grandeza da democracia que nós estamos a sonhar.
> Martin Luther King tinha um sonho... Que sejam equipotentes, um
> controlando o outro, um iluminando o outro. E, neste momento, você
> ilumina o Poder Executivo e o Poder Judiciário.
> O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF) ¿ Muito obrigado, Senador Mão Santa.
> E não deixei de falar que a mídia precisa descobrir o outro lado dessa
> tragédia, que é o lado do poder da gente de mudar as coisas, que é o
> lado do que está sendo feito de bom no dia a dia.
> Nós vivemos um momento em que, aparentemente, ninguém quer se sentir
> capaz de reorientar os destinos da Nação.
> E eu quero até concluir, Senador Paim, lembrando que me preocupa até
> mesmo o debate que virá no próximo ano para escolher o próximo
> Presidente ou Presidenta da República. A sensação que eu tenho é de
> que vai ser o mais chato de todos os debates da História do Brasil.
> Vai ser o mais monótono de todos os debates da História do Brasil,
> porque vão se comportar não como se fossem líderes para reorientar a
> História do Brasil. Eles vão se concentrar como se fossem os diretores
> da peça da tragédia, como se já tivesse tudo prescrito, apenas eles
> vão fazer mais projetos de infraestrutura, apenas eles viriam ou irão
> fazer um pouco mais ou menos, mas para cumprir o mesmo destino,
> destino que está prescrito numa frase que se diz no Brasil, como se
> fosse um orgulho: o País do futuro.
>
> Que País do futuro? A gente quer um País que construa um futuro, um
> País cujo presente está a construção do futuro; e não um País cujo
> futuro virá automaticamente, como nas peças gregas, como nas peças
> teatrais das tragédias a que nós assistimos.
>
> O Hamlet, que o Senador citou, não queria aparentemente, mas ele foi
> programado pelo dramaturgo para vingar a morte do pai, e ele fez tudo
> o que foi preciso para cumprir isso.
> Em cada peça de teatro que a gente vê, os personagens fazem tudo que o
> dramaturgo escreveu. Agora, num país, a gente não pode fazer aquilo
> que foi escrito, porque não foi escrito. Está para ser escrito. Por
> isso, não é peça de teatro, é História do Brasil.
> Nós precisamos dar um grito de independência e deixarmos de ser
> personagens de uma tragédia e virarmos personagens de uma história,
> história com ¿h¿, história feita, história construída.
> Mas, para isso, é preciso despertar. É preciso despertar cada um da
> gente do poder que a gente não sabe que tem, do poder que a gente acha
> que não tem, e termina se divertindo. Os Parlamentares nos divertimos
> fazendo essa encenação teatral; o Poder Executivo se diverte mostrando
> uma publicidade de uma encenação de realizações; o Poder Judiciário
> faz uma encenação de que há justiça. E a mídia divulga pura encenação,
> não penetra, não analisa, e a gente fica, cada um de nós, convivendo,
> sofrendo, nessa relação que eu disse sadomasoquista, mas sem querer
> dar o grito de que nós somos os condutores da história do País. Nós
> não somos personagens impotentes. Nós não estamos aqui apenas para
> dizer o que o dramaturgo escreveu. Nós estamos aqui para dizer aquilo
> que o País precisa fazer, é nós sabemos o que é. Nós sabemos que é
> preciso pormos juntos Executivo, Judiciário e a mídia. Bastaria dizer
> que a gente estaria cumprindo o nosso papel, para, mais uma vez, fazer
> aquilo que, em poucos momentos, nós fizemos, como em 1822, quando da
> luta de um país colônia, que queria ser independente, e saiu
> independente. Em 1889, quando um país monárquico e um republicano, e
> saiu o republicano. Como em 1930, um país agrícola exportador, e
> surgiu um país industrial. Outra vez nós precisamos fazer uma inflexão
> na história, dobrar a história, conduzir a história e transformar este
> País, de uma sociedade brutalmente desigual, como foi durante a
> escravidão, brutalmente depredador da natureza, como fomos toda a
> nossa história, preferindo o trabalho manual ao trabalho da
> inteligência, preferindo produzir bens materiais a produzir bens
> vindos da ciência e da tecnologia...
>
> Nós precisamos pegar esse país velho da indústria puramente mecânica,
> depredadora e concentradora e daí fazer surgir um novo país, um novo
> país da indústria do conhecimento, respeitando o meio ambiente,
> distribuindo os produtos que nós temos aqui, tudo isso
> democraticamente e com a participação de todos, da mídia denunciando
> tudo de errado que existir e propondo um debate sobre tudo de novo que
> ainda não existe, do povo votando corretamente e indo para a rua
> quando for preciso para exigir os seus direitos e a construção de um
> país melhor.
>
> E nós Parlamentares, não dando margem a tantas notícias ruins, pois
> nos transformamos em verdadeira fábrica de notícias negativas sobre o
> Congresso. E, ao mesmo tempo, mais do que isto: nos transformando em
> condutores deste País, não atores de uma peça predeterminada, mas
> autores de uma história ainda a ser construída.
>
> Eu vim aqui querendo comemorar os 509 anos em que aqui chegaram os
> portugueses e eu gostaria de poder dizer que, junto com os índios, e,
> depois, junto com os africanos, construíram este País. Mas não foi
> assim. Chegaram aqui os portugueses e, contra os índios e contra os
> africanos e destruindo a natureza, fizeram este País que a gente tem
> hoje, que parece o resultado de uma grande tragédia.
> Está em tempo, porque o País é eterno, sempre haverá tempo, mas o
> triste é que a gente deixe passar pelas mãos da gente a chance de
> ainda em nossa vida nos transformarmos, de atores, em autores,
> transformarmos uma peça teatral em uma história nacional.
> Ainda é tempo de este Congresso assumir esse papel.
> Ainda é tempo de nós, que somos a Casa do povo, exigirmos isso do
> Executivo e do Judiciário. E ainda é tempo de que o nosso
> comportamento termine por inspirar a mídia, para que ela continue
> sendo a denunciadora, mas também a incendiadora, a incendiadora de um
> novo país, a incendiadora das ideias que iluminarão o novo país.
> Hoje, ela não está sendo isso. Hoje, ela está sendo, corretamente ¿ e
> não temos de reclamar de nada do que ela escreve ¿, apenas a
> denunciadora, que é um papel importante da mídia. Ela tem de ser a
> incendiadora no sentido de iluminar, por meio dos debates que ela
> transmite, das ideias que ela não está descobrindo e que existem; ela
> tem que iluminar um Brasil diferente, um Brasil em que os atores se
> transformem em autores, em que as tragédias se transformem na glória,
> um país onde a peça se transforme em história.
> É isso, Sr. Presidente Paim, que eu gostaria de dizer nesta manhã de
> sexta-feira, sem muitas ilusões de que vou deixar de ser um ator para
> ser um autor. Não tenho essas ilusões mais, talvez pela idade, mas
> tenho a grande esperança de, quem sabe, alguém com menos de 15 anos
> que tenha hoje escutado o que eu falei possa despertar e dizer ¿eu não
> quero ser apenas ator da grande peça Brasil; eu quero ser o autor da
> grande história que o Brasil poderá vir a ter, mas não terá
> automaticamente como muitos pensam¿.
>
> Autor   Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista /DF)
> Data    24/04/2009      Casa    Senado Federal  Tipo    Discurso
> http://www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=378863
>
>
>
> --
> Talvez um rio manso surja esta manhã.
> Talvez triunfe a verdade.
> Talvez não seja demasiado tarde
> para sair a semear
> canções de outros tempos.
>
>                            Augusto Blanca
>
> --
> Site da Comunidade GIAL
> http://colab.interlegis.gov.br
>
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Hélio Leite Teixeira
Assembléia Legislativa de Alagoas
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