[gial] Um pouco de reflexão

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Terça Abril 28 11:05:10 BRT 2009


Car em s,

Semana passada cheguei em casa tarde da noite e cansado dei uma  
cochilada no sofá. Por acaso acabei deixando a televisão ligada na TV  
senado, quando eu acordei ouvindo o Cristóvam Buarque fazendo um dos  
pronunciamentos mais belos que já vi e que não via desde os tempos da  
Ditadura Militar. Compartilho com vocês abaixo.

Talvez valha uma reflexão para o legislativo local.

Inté

Inácio


O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem  
revisão do orador.) ¿ Sr. Presidente e Senador Mão Santa, demorei  
muito, na minha história de leitor, para gostar de ler peças de  
teatro. Mas chego ao ponto ¿ talvez seja a idade que facilite ¿ que  
terminei adquirindo esse gosto. Estou vendo, Senador Paim, como estão  
parecidas as peças gregas, as peças trágicas de Shakespeare com os  
jornais brasileiros de hoje. A sensação que tenho, ao ler os jornais,  
é que estou lendo as tragédias especialmente gregas. Vou explicar por  
quê.
Quando a gente assiste a uma peça de teatro, dessas mais trágicas, o  
bom ator passa para nós a idéia de que está cumprindo um papel que  
preferiria que não acontecesse no final. Ele passa a sensação ¿ cada  
um deles ¿ de que seria melhor que, no final, não houvesse a morte, as  
diversas formas como a tragédia se manifesta. Mas, apesar de ele  
passar a idéia de que não deseja aquele final, ele cumpre cada passo  
definido pelo dramaturgo para que o final seja trágico.
Estamos assim. Estamos hoje funcionando como se não quiséssemos que  
houvesse um final trágico, mas fazendo tudo aquilo que é preciso para  
que a tragédia aconteça. Vamos analisar quais são os setores.  
Comecemos por nós próprios.
Nós sabemos que hoje, diante de nós, por cima de nós, está uma  
quantidade de holofotes nos observando, uma transparência criada pela  
força da democracia que faz com que cada pequeno ou grande pecado  
cometido seja visto com a dimensão da gravidade que a mídia transmite.
Apesar disso, a gente continua fazendo gestos que nos levam a uma  
imagem negativa lá fora. Nós estamos fazendo isso. Às vezes, coisas  
simples, às vezes, coisas graves. Por exemplo, a ausência nossa... E  
eu quero deixar claro que quando eu digo nossa, eu estou me incluindo.  
Não há aqui ninguém melhor do que o outro. Nós somos aqui um  
Parlamento. Nossa ausência. A gente está vindo dois, três dias por  
semana aqui, salvo um ou outro. Mas mesmo com esse um ou outro que vem  
aqui, a gente não tem chance de votar, de debater, de analisar, de  
enfrentar. A gente faz um discurso, e cai no vazio, porque ninguém  
assiste e, os poucos que assistem, não respondem, não discutem, não  
confrontam, que é a finalidade de um parlamento.
Nós estamos cometendo uma forma de comportamento que leva,  
necessariamente, à descrença. E a descrença com o Congresso é uma  
tragédia para a democracia.
O próprio assunto, Senador Mão Santa, sobre o qual alguns já falaram  
hoje, das passagens para as famílias, eu quero dizer, em primeiro  
lugar, que nós, Senadores de Brasília, eu e os outros dois, a gente  
não deve receber passagem nenhuma para familiares. Nenhuma, nenhuma,  
nenhuma. Agora, os Parlamentares de outros Estados deviam ser  
obrigados a trazer suas famílias para viver em Brasília. Deviam  
receber, pelo menos, uma passagem por semestre para todos os seus  
familiares, da sua cidade para Brasília, como fazem as empresas quando  
transferem um executivo. E uma das falhas dessa tragédia que se  
anuncia é a mudança no comportamento nosso, dos Parlamentares, de um  
tempo passado em que as famílias vinham viver aqui e os Parlamentares  
ficavam o tempo todo aqui, com essa mania de hoje de vir e, toda  
semana, ir visitar a família lá fora, em sua casa.
Isso está nos afastando, entre nós Parlamentares, está afastando os  
Parlamentares não apenas das suas famílias, mas da possibilidade de  
exercermos o papel de Parlamentares, que é parlamentar, que é se  
encontrar, que é conviver, que é debater.
Nós parecemos hoje personagens de uma tragédia grega, fazendo aquilo  
que a gente não quer que leve a um desenlace trágico, mas fazendo  
mesmo assim, esperando que, no final, o público chore com aquilo que a  
gente representou. Nós não estamos trazendo aqui os grandes temas  
nacionais, não estamos debatendo a pauta do povo, salvo uma ou outra  
vez em que a gente fez, graças inclusive ao Senador Paim, as vigílias.
Mas, cadê as outras? Fizemos a dos aposentados, mas cadê a vigília  
para discutir a situação das crianças? Cadê a vigília para discutir a  
situação da infraestrutura? Cadê a vigília para discutir o próprio  
Congresso, numa noite inteira, todo mundo debatendo? Além disso, vamos  
lembrar bem, as nossas vigílias tinham cinco, seis pessoas aqui  
dentro. Nós estamos nos comportando como figurantes de uma tragédia  
que a gente não quer que aconteça, mas a gente cumpre o papel para  
isso. Mas não venham dizer que somos apenas nós os congressistas.
Vamos olhar o Poder Executivo. O Poder Executivo está-se comportando  
como se não desse atenção, como se quisesse evitar uma tragédia, mas  
faz tudo para que aconteça.
As medidas provisórias que paralisam o Congresso. As medidas  
provisórias que substituem os projetos dos próprios congressistas.
O excesso de publicidade do Governo para mostrar como se só o  
Executivo funcionasse neste País e nós fôssemos um apêndice secundário  
do processo democrático.
O Presidente da República, provavelmente sem querer, está sendo hoje  
um figurante de uma tragédia que se anuncia, que a gente caminha para  
acontecer, que é o descrédito nas instituições.
Mas não só o Poder Executivo, o Judiciário também. E eu não falo  
apenas do confronto entre dois juízes diante das televisões, ou pelo  
menos diante da TV Justiça. Não, eu falo mais grave que isso. Falo,  
por exemplo, que nós estamos, hoje, naquele choque entre juízes,  
analisando se foi ou não falta de decoro. E não analisando se tem ou  
não verdade por trás do que eles disseram.
Quando a gente fica na aparência, ao invés de ficar na substância, é  
porque a gente não está querendo enfrentar o problema. E se a gente  
não quer enfrentar o problema, a gente está-se comportando, cada um de  
nós, como figurantes de uma grande peça chamada História do Brasil,  
que pode terminar numa tragédia que a gente não quer que aconteça, mas  
que a gente faz tudo para que ela aconteça como a gente não quer.
E quando a Justiça se intromete no Poder Legislativo como tem feito  
sistematicamente? E quando a Justiça manda tirar as algemas dos ricos  
e fecha os olhas às algemas nos braços dos pobres? Como se algema não  
pudesse sujar os punhos de seda dos ricos, mas pudesse ser colocada  
nos punhos dos pobres que vão sem camisa para a frente da televisão.
A Justiça, quando faz isso, está colaborando para uma tragédia, a  
tragédia na descrença das instituições democráticas. Não estão  
querendo que aconteça o trágico, mas estão agindo para que ele, no  
final, aconteça.
Nós vimos três setores que estão fazendo isso.
Mas a mídia também. A mídia. Não por dizer o que diz, mas por  
limitar-se quase que apenas ao dizer o que diz. A mídia esqueceu os  
debates que a gente tem que fazer neste País, entre um país velho que  
tem que morrer e um novo que tem que surgir, o velho da destruição  
ecológica, o velho da concentração de renda, para surgir o novo, do  
desenvolvimento equilibrado social e ecologicamente com democracia. A  
gente não vê esse debate na mídia. Será que ninguém está falando isso?  
Ou é a mídia que se acostumou a uma única pauta, necessária, mas  
insuficiente, que é a pauta do escândalo.
Nós temos hoje uma relação que tem tudo a ver com o teatro, é uma  
relação sadomasoquista entre políticos e jornalistas. Hoje é uma  
relação sadomasoquista. E nós somos os masoquistas. E eles são os  
sádicos. Nós somos os masoquistas porque fazemos coisas que levam a  
mídia, corretamente, a denunciar, e, depois, nós sofremos com a  
denúncia que eles fazem. Mas o pior é que eles sentem prazer em  
denunciar as coisas que são denunciadas. Eu não vejo que a mídia diz:  
¿Eu tenho que dizer essas coisas feias que estão acontecendo com  
tristeza e lamentando, porque era melhor que este Congresso fosse  
feito apenas de santos¿. Eu não vejo. A sensação que tenho é que há  
uma certa alegria em descobrir mais um crime, mais um pecado, mais um  
comportamento errado, e isso é característica dos sádicos. Nós somos  
os masoquistas. Nós estamos dando as armas para eles. A mídia não tem  
mentido, o que a mídia tem feito é esquecido o resto da verdade que  
acontece nesta Casa que defende a democracia. Vê-se que cada um de nós  
está fazendo a sua parte, Senador Mão Santa, para um desenlace  
negativo, trágico, mas a gente está fazendo cada um a sua parte, como  
os personagens das tragédias gregas ou das tragédias de Shakespeare: o  
autor age como se ele não quisesse que o final fosse aquela situação.  
Quer dizer, ele não deixa, não interrompe no meio, não muda o rumo  
traçado pelo dramaturgo. Nós estamos como se fôssemos os atores de uma  
grande peça inventada por alguém neste País ou neste mundo que é o  
destino do Brasil.
Vou mostrar que há mais indicações disso, são as indicações mais antigas.
Anteontem não ouvi ninguém comentar, mas nós comemoramos 509 anos da  
chegada dos europeus aqui, em terras brasileiras. E esses 509 anos  
parecem ser uma imensa peça trágica teatral, que se limitou no começo  
¿ e não mudou muito ¿ a matar e a escravizar os índios e a saquear a  
terra, porque foi isso o que aconteceu no início da colonização:  
matamos. E veja que eu continuo colocando no plural: incluindo-me como  
parte desses portugueses, descendentes todos nós que somos deles,  
direta ou indiretamente. Nós nos dedicamos a arrancar pau-brasil e a  
matar índios; às vezes, matando-os fisicamente e, às vezes, matando-os  
pela conversão a uma religião que entrava forçosamente na alma deles,  
porque a religião deles era outra. Também é uma forma de canibalismo  
fazer certas conversões. Canibalismo não é só comer carne, como os  
índios comeram a de um bispo; canibalismo também tem na alma, quando  
um bispo converte, de uma maneira forçada, um grupo de outra religião.
E de lá para cá? De lá para cá, nós concentramos nossa história,  
durante 480 anos quase, a explorar, a matar, a saquear ¿ e não só os  
índios ¿ os negros africanos. Estava na cara, como se diz, que não  
iria dar certo uma economia com base na escravidão. Não dá certo  
eticamente, não dá certo moralmente, não dá certo nem economicamente  
manter todos aqueles milhões de escravos fora da economia, apenas como  
se fossem máquinas, sem consumir. O mercado é inaproveitado.
Um mercado inaproveitado. Não podia dar certo e não deu certo. Além  
disso, fizemos o mesmo, só que substituindo o pau-brasil, que a gente  
mandava para fora, pela cana, pelo algodão, pelo ouro, pelo café, mas  
uma economia baseada na exportação de bens primários, quando os outros  
países começavam a industrialização. Tinha que dar errado. Mas nós do  
passado brasileiros, nós dirigentes no passado brasileiros agimos como  
se fôssemos parte de uma tragédia predefinida, escrita por um  
dramaturgo como se nós não tivéssemos o poder de mudar o destino dos  
personagens. Porque é isso que caracteriza os atores. Eles não têm o  
poder de mudar o destino dos personagens, eles sofrem com aquele  
destino que vai acontecer, mas eles dizem todas palavras, eles colocam  
toda a poesia que um dramaturgo escreveu.
Essa é a sensação que tenho hoje como político. Que eu estou dizendo  
as palavras que foram traçadas para serem ditas, fazendo aquilo que  
fomos traçados para fazer, como se não tivéssemos o poder de mudar a  
história porque a história é uma peça de teatro. Essa é a sensação que  
tenho. E chegamos hoje aonde nessa peça? Chegamos hoje a um País que  
tem 14 milhões de analfabetos adultos. Chegamos a uma tragédia. Quem  
não percebe? Chegamos a um País que está em guerra civil e a gente  
parece que não percebe. Chegamos a um País onde apenas um terço das  
crianças terminam o segundo grau e sem qualidade suficiente para  
enfrentar o mundo de hoje, como o próprio Senador Paim falou mais cedo  
ao insistir na criação de um fundo para a escola do ensino técnico.
Chegamos a um País em que, 500 anos depois, comemoramos anteontem,  
continua-se exportando basicamente ferro e soja, agricultura e pedras,  
como fizemos no passado. E aí alguns dizem: mas já exportamos  
automóveis e aviões. Automóveis e aviões que são importados,  
especialmente os automóveis, sem nenhuma contribuição, quase,  
científica e tecnológica brasileira. E aviões que têm, sim, uma  
pequena contribuição. Tem, não há dúvida, graças a uma escola chamada  
Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Mas, mesmo assim, nos nossos  
aviões, dentro deles, há um alto conteúdo de saber, inteligência e  
conhecimento importados, não inventados aqui dentro.
Continuamos um País cuja tragédia está em não sermos um criador de  
conhecimento, não sermos um criador de inteligência. Não temos um  
único Prêmio Nobel neste País e não há nenhum de nós que esteja por  
aí, no mundo científico, cultural, que dê a impressão que vá ganhar o  
Nobel nos próximos 20 ou 30 anos. Pode até ser, de repente, mas,  
aparentemente, o Brasil não vai ganhar nenhum Prêmio Nobel nos  
próximos 20 ou 30 anos, porque, em geral, sabemos, décadas antes,  
quais são aqueles que poderão ganhar um Nobel como grande  
reconhecimento mundial do seu saber. Não temos hoje. Temos cientistas,  
temos filósofos, temos escritores, mas, aparentemente, nenhum que nas  
próximas décadas possa-se dizer: este é o nome que vai receber o  
coroamento do conhecimento mundial. Podemos até ter, de repente, algum  
Prêmio Nobel da Paz, porque a paz, em geral, tem por causa a tragédia.  
Os Prêmios Nobel da Paz acontecem por causa das guerras, por causa da  
miséria, por causa da destruição ecológica. Não por causa do saber,  
não por causa da inteligência, não por causa da ciência e da tecnologia.
Estamos vivendo uma grande tragédia nesse imenso palco de 8,5 milhões  
de Km², com quase 200 milhões de atores, porque eu falei primeiro  
daqueles que são os responsáveis: nós, Parlamentares, Poder Executivo  
e Poder Judiciário. Vamos analisar também. Todo o Poder Judiciário,  
todo o Poder Legislativo e todo o Poder Executivo saem do povo,  
especialmente o Executivo e o Legislativo, que são eleitos pelo povo.  
Então, o povo faz parte também dessa imensa tragédia. E esse povo já  
demonstrou, mais até do que nós, que, quando é preciso, ele consegue  
mudar o rumo da história. Eles fizeram isso em 1945, quando foram para  
a rua a fim de trazer de volta a democracia. Eles fizeram isso quando  
foram para a rua para criar a Petrobras. Eles foram para a rua pelas  
eleições diretas. Não foram para a rua, mas desligaram o interruptor  
naquela grande tragédia do apagão elétrico que nós vivemos. O povo  
colaborou. O povo até que, de vez em quando, dá uma virada na História  
deste País, muda a tragédia que foi definida por cima, como se  
fôssemos impotentes, como se a História não fosse a História, como se  
a História fosse uma peça de teatro escrita previamente e dando a cada  
um de nós a responsabilidade de cumprir o nosso papel, sem poder, sem  
imaginação, apenas com a capacidade de representar aquilo que outros  
querem dizer pelas nossas bocas.
Fizemos 509 anos dois dias atrás. E fizemos em um processo que não tem  
essas diferenças todas, quando vemos a desigualdade, quando vemos as  
características da nossa sociedade. Claro que não é mais todo negro  
escravo, mas a maioria deles fora de uma escola de qualidade e poucos  
na universidade. Não houve grandes saltos. Claro que a escola hoje não  
é mais apenas para os filhos dos ricos; existem escolas para os filhos  
dos pobres, mas que não podem ser chamadas, com clareza, de escola,  
porque muitas delas não passam de restaurantes mirins para distribuir  
a merenda escolar e não para que se estude nelas.
É tão claro que não mudamos; que o projeto que está circulando neste  
Congresso para que os filhos dos Parlamentares, Deputados, Vereadores,  
Senadores e Prefeitos devam estudar em escola pública é visto como se  
fosse uma demagogia, como se fosse uma impossibilidade.
Da mesma maneira que neste País da tragédia, no sentido, não da  
maldade, da ruindade, mas no sentido da impotência em mudar o seu  
rumo, neste mesmo País, não faz muito, falar em abolir a escravidão  
era considerado demagogia, porque mesmo aqueles, Senador Paim, que  
defendiam os escravos, eles não defendiam a abolição. Mesmo aqueles  
que defendiam os escravos, eles defendiam menos chicotadas, eles  
defendiam que os escravos não pudessem ser assassinados, inclusive,  
chegaram a defender que a família não poderia ser vendida  
separadamente, tinha que ser vendida em bloco. Chegaram a defender  
que, passados 60 anos, eles ficariam livres, porque já não podiam  
trabalhar. Chegaram a defender que o filho da escrava não seria  
escravo, mas não defendiam a Abolição da Escravatura, porque isso era  
considerado impossível, porque isso era considerado uma  
impossibilidade, porque isso era considerado ferir o direito do dono  
do escravo, que tinha gasto um dinheirão para comprar os seus escravos  
e, de repente, ao abolir a escravidão, isso faria com que perdesse  
todo o seu capital. Era considerado demagogia, era considerado  
impossibilidade, era considerado falta de liberdade dar liberdade aos  
escravos. Dar liberdade aos escravos era considerado tirar liberdade  
dos donos dos escravos. Essa era uma tragédia, mas todos colaboravam  
para isso, até que de vez em quando surgia uma voz que mudava, como  
surgiu Joaquim Nabuco, que passou a defender a abolição e foi visto  
como um demagogo durante anos e anos, até que terminou acontecendo.
Quase que por inanição a escravidão se acabou, porque já não se  
justificava ter que comprar escravos, já que havia muita gente  
querendo se vender por um salário de nada. Para que gastar dinheiro  
trazendo escravos de longe se eles moravam por perto? Como hoje, para  
que buscar um trabalhador na África, escravo, se nas favelas eles  
estão dispostos a trabalhar por qualquer valor? Nós passamos a ideia,  
o nosso Brasil, de que não somos um País com uma história sobre a qual  
temos o poder, sobre a qual podemos mudar de rumo. Nós passamos a  
ideia de que somos 200 milhões de atores de uma tragédia previamente  
escrita e que nosso papel é cumprir o que essa tragédia já tem  
predeterminada por um dramaturgo qualquer que não sabemos quem é.
Está na hora de pensarmos em mudar isso. Está na hora de assumirmos  
que somos cidadãos, não atores. Nós somos cidadãos de uma história,  
nem atores de uma peça teatral, e que nós queremos que essa história  
traga um País melhor e não um final trágico, como aqueles que estão  
escritos previamente nas peças de teatro.
Para isso, vamos precisar mudar algumas coisas. Mas, antes de tentar  
sugerir essas mudanças, Senador Paim, passo a palavra ao Senador Mão  
Santa, que pediu um aparte.
O Sr. Mão Santa (PMDB ¿ PI) ¿ Senador Cristovam, V. Exª faz um feliz  
discurso, sempre com muita cultura. Às vezes, é como diz o Antoine  
Exupéry: a linguagem é fonte de desentendimento. Mas V. Exª, hoje ¿ a  
felicidade foi tão grande ¿, vai buscar a tragédia grega e citou  
Shakespeare, quando ele disse no Rei Lear: ¿Há algo de podre no Reino  
da Dinamarca¿. E me impressionou mais quando ele foi adiante e disse:  
¿É melhor ser um mendigo em Nápoles do que Rei da Dinamarca¿. Paim, eu  
fiquei tão perplexo que, na Itália, eu fui conhecer essa Nápoles. E,  
realmente, a natureza foi Deus que fez, mas a cultura é o homem. E o  
que é que tem em Nápoles? Nápoles é aquela elite do Renascimento:  
Maquiavel, Dante Alighieri, Leonardo da Vinci. Todos moraram e  
nasceram ali; conviveram, viram a cultura, e mudaram o mundo. De lá  
veio o Renascimento. Mas V. Exª adverte com tanta firmeza o que nós  
vivemos ¿ essa tragédia ¿ e culturalmente, porque a natureza é Deus, a  
cultura somos nós. V. Exª fala em Prêmio Nobel da Paz. Quer dizer, a  
gente fica perplexo, porque não tem Nobel de nada no Brasil. Bem aí no  
Chile têm dois escritores: Uma mulher, Gabriela Mistral, cujos  
escritos são mais de cunho religioso, e o Pablo Neruda, que foi  
Senador da República. Então, nós temos muito a dever. Mas é aqui,  
aqui, aqui. Essas instituições que têm que vir. O Pedro II dava o  
ensinamento. Ele deixava a coroa e o cetro e ia assistir às sessões do  
Senado. Então, o mundo é outro. Vamos ver se os nossos, os outros  
Poderes, o Executivo de Sua Excelência o nosso Presidente Luiz Inácio,  
tomam conhecimento do seu discurso. E o outro Poder, o Judiciário,  
também. É com a grandeza da democracia que nós estamos a sonhar.  
Martin Luther King tinha um sonho... Que sejam equipotentes, um  
controlando o outro, um iluminando o outro. E, neste momento, você  
ilumina o Poder Executivo e o Poder Judiciário.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (PDT ¿ DF) ¿ Muito obrigado, Senador Mão Santa.
E não deixei de falar que a mídia precisa descobrir o outro lado dessa  
tragédia, que é o lado do poder da gente de mudar as coisas, que é o  
lado do que está sendo feito de bom no dia a dia.
Nós vivemos um momento em que, aparentemente, ninguém quer se sentir  
capaz de reorientar os destinos da Nação.
E eu quero até concluir, Senador Paim, lembrando que me preocupa até  
mesmo o debate que virá no próximo ano para escolher o próximo  
Presidente ou Presidenta da República. A sensação que eu tenho é de  
que vai ser o mais chato de todos os debates da História do Brasil.  
Vai ser o mais monótono de todos os debates da História do Brasil,  
porque vão se comportar não como se fossem líderes para reorientar a  
História do Brasil. Eles vão se concentrar como se fossem os diretores  
da peça da tragédia, como se já tivesse tudo prescrito, apenas eles  
vão fazer mais projetos de infraestrutura, apenas eles viriam ou irão  
fazer um pouco mais ou menos, mas para cumprir o mesmo destino,  
destino que está prescrito numa frase que se diz no Brasil, como se  
fosse um orgulho: o País do futuro.

Que País do futuro? A gente quer um País que construa um futuro, um  
País cujo presente está a construção do futuro; e não um País cujo  
futuro virá automaticamente, como nas peças gregas, como nas peças  
teatrais das tragédias a que nós assistimos.

O Hamlet, que o Senador citou, não queria aparentemente, mas ele foi  
programado pelo dramaturgo para vingar a morte do pai, e ele fez tudo  
o que foi preciso para cumprir isso.
Em cada peça de teatro que a gente vê, os personagens fazem tudo que o  
dramaturgo escreveu. Agora, num país, a gente não pode fazer aquilo  
que foi escrito, porque não foi escrito. Está para ser escrito. Por  
isso, não é peça de teatro, é História do Brasil.
Nós precisamos dar um grito de independência e deixarmos de ser  
personagens de uma tragédia e virarmos personagens de uma história,  
história com ¿h¿, história feita, história construída.
Mas, para isso, é preciso despertar. É preciso despertar cada um da  
gente do poder que a gente não sabe que tem, do poder que a gente acha  
que não tem, e termina se divertindo. Os Parlamentares nos divertimos  
fazendo essa encenação teatral; o Poder Executivo se diverte mostrando  
uma publicidade de uma encenação de realizações; o Poder Judiciário  
faz uma encenação de que há justiça. E a mídia divulga pura encenação,  
não penetra, não analisa, e a gente fica, cada um de nós, convivendo,  
sofrendo, nessa relação que eu disse sadomasoquista, mas sem querer  
dar o grito de que nós somos os condutores da história do País. Nós  
não somos personagens impotentes. Nós não estamos aqui apenas para  
dizer o que o dramaturgo escreveu. Nós estamos aqui para dizer aquilo  
que o País precisa fazer, é nós sabemos o que é. Nós sabemos que é  
preciso pormos juntos Executivo, Judiciário e a mídia. Bastaria dizer  
que a gente estaria cumprindo o nosso papel, para, mais uma vez, fazer  
aquilo que, em poucos momentos, nós fizemos, como em 1822, quando da  
luta de um país colônia, que queria ser independente, e saiu  
independente. Em 1889, quando um país monárquico e um republicano, e  
saiu o republicano. Como em 1930, um país agrícola exportador, e  
surgiu um país industrial. Outra vez nós precisamos fazer uma inflexão  
na história, dobrar a história, conduzir a história e transformar este  
País, de uma sociedade brutalmente desigual, como foi durante a  
escravidão, brutalmente depredador da natureza, como fomos toda a  
nossa história, preferindo o trabalho manual ao trabalho da  
inteligência, preferindo produzir bens materiais a produzir bens  
vindos da ciência e da tecnologia...

Nós precisamos pegar esse país velho da indústria puramente mecânica,  
depredadora e concentradora e daí fazer surgir um novo país, um novo  
país da indústria do conhecimento, respeitando o meio ambiente,  
distribuindo os produtos que nós temos aqui, tudo isso  
democraticamente e com a participação de todos, da mídia denunciando  
tudo de errado que existir e propondo um debate sobre tudo de novo que  
ainda não existe, do povo votando corretamente e indo para a rua  
quando for preciso para exigir os seus direitos e a construção de um  
país melhor.

E nós Parlamentares, não dando margem a tantas notícias ruins, pois  
nos transformamos em verdadeira fábrica de notícias negativas sobre o  
Congresso. E, ao mesmo tempo, mais do que isto: nos transformando em  
condutores deste País, não atores de uma peça predeterminada, mas  
autores de uma história ainda a ser construída.

Eu vim aqui querendo comemorar os 509 anos em que aqui chegaram os  
portugueses e eu gostaria de poder dizer que, junto com os índios, e,  
depois, junto com os africanos, construíram este País. Mas não foi  
assim. Chegaram aqui os portugueses e, contra os índios e contra os  
africanos e destruindo a natureza, fizeram este País que a gente tem  
hoje, que parece o resultado de uma grande tragédia.
Está em tempo, porque o País é eterno, sempre haverá tempo, mas o  
triste é que a gente deixe passar pelas mãos da gente a chance de  
ainda em nossa vida nos transformarmos, de atores, em autores,  
transformarmos uma peça teatral em uma história nacional.
Ainda é tempo de este Congresso assumir esse papel.
Ainda é tempo de nós, que somos a Casa do povo, exigirmos isso do  
Executivo e do Judiciário. E ainda é tempo de que o nosso  
comportamento termine por inspirar a mídia, para que ela continue  
sendo a denunciadora, mas também a incendiadora, a incendiadora de um  
novo país, a incendiadora das ideias que iluminarão o novo país.
Hoje, ela não está sendo isso. Hoje, ela está sendo, corretamente ¿ e  
não temos de reclamar de nada do que ela escreve ¿, apenas a  
denunciadora, que é um papel importante da mídia. Ela tem de ser a  
incendiadora no sentido de iluminar, por meio dos debates que ela  
transmite, das ideias que ela não está descobrindo e que existem; ela  
tem que iluminar um Brasil diferente, um Brasil em que os atores se  
transformem em autores, em que as tragédias se transformem na glória,  
um país onde a peça se transforme em história.
É isso, Sr. Presidente Paim, que eu gostaria de dizer nesta manhã de  
sexta-feira, sem muitas ilusões de que vou deixar de ser um ator para  
ser um autor. Não tenho essas ilusões mais, talvez pela idade, mas  
tenho a grande esperança de, quem sabe, alguém com menos de 15 anos  
que tenha hoje escutado o que eu falei possa despertar e dizer ¿eu não  
quero ser apenas ator da grande peça Brasil; eu quero ser o autor da  
grande história que o Brasil poderá vir a ter, mas não terá  
automaticamente como muitos pensam¿.

Autor  	Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista /DF)
Data 	24/04/2009 	Casa 	Senado Federal 	Tipo 	Discurso
http://www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=378863



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Talvez um rio manso surja esta manhã.
Talvez triunfe a verdade.
Talvez não seja demasiado tarde
para sair a semear
canções de outros tempos.

                            Augusto Blanca




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